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[Websérie Literária] A estrela do tempo- Anderson Shon. Capítulo 1

>> quinta-feira, 12 de maio de 2016




Olá Pessoas! Tudo bem com vocês? 

Semana passada postamos em nosso instagram uma imagem contando que viria novidade por aí... e fizemos uma pergunta: "Se vocês pudessem voltar no tempo para mudar algo do passado, o que seria?" 
Pois bem, essa é uma pergunta que o Joseph vai ter que responder na primeira Websérie Literária aqui do Menina: "A Estrela do Tempo", do Anderson Shon. Ela terá sete capítulos e contará a história do jovem Josh em sua apaixonante viagem no tempo. A primeira aventura vocês acompanham agora... 

Capítulo 1: A máquina do tempo.

- Joseph, você conseguiu!!! – Morcego olhava fascinado para a luz azul que saia de dentro da máquina.

- Adeus, meu caro amigo, eu volto pra te contar como foi. – Falei ao me aproximar do feixe de luz.

- Tecnicamente – Ele sorriu. –, eu já sei o que vai acontecer.

Acho que você não está entendendo, né? Meu nome é Joseph, sou um jovem sonhador que carrega o título de menino mais inteligente do mundo. A curiosidade é que não sou mais um menino, mas sempre tem alguém que me para na rua e pergunta:

“Vem cá, você não é o menino mais inteligente do mundo?”

Já nem curto mais essa denominação, na verdade, acho um saco ficar sendo abordado por isso, mas o que posso fazer? São as marcas da minha infância. Eu virei o menino mais inteligente do mundo de forma bem curiosa, foi culpa da Anna. Eu ainda não a apresentei, na verdade, não apresentei ninguém. Vamos lá. Anna e Morcego são os melhores amigos que uma pessoa pode ter. Estamos juntos desde a época da escola e passamos por tantas loucuras que nem sei muito bem por onde começar. Morcego era descuidado, desligado, vivia em seu mundo, um mundo tão particular que era impossível entrar nele. Dormia o tempo todo, foi daí que nasceu o apelido.

“Mas Thiago, você dorme a aula toda, tá trocando o dia pela noite? Parece um morcego!”

Amigo de todas as horas, conseguimos algo raro; fazer a amizade pular os muros da escola. Com Anna foi assim também, quer dizer, foi um pouco mais. Hoje é o dia do seu casamento e, infelizmente, não sou o marido. Essas não são minhas palavras, são as palavras dela. Recebi, há alguns meses, um envelope com o convite de casamento e uma carta falando sobre um amor secreto que ela nutria por mim. O conteúdo daquela carta despertou-me um sentimento sem volta. Volta? Falando em voltar, preciso explicar como me tornei o menino mais inteligente do mundo. Começou quando eu estava me dando muito mal numa avaliação de matemática. Clichê, não é? Eu sempre fui péssimo em matemática...

Vidrado na prova e com a certeza de que não sabia nada, resolvi olhar para o lado de fora torcendo que as respostas caíssem do céu. Um pouco distante, avisto Anna acenando pra mim. Estava querendo me focar na avaliação, mas era impossível, ela fazia coreografia tosca para tentar me desconcentrar. Dei uma última olhada nas questões e percebi que estava completamente despreparado para aquela situação. Ou responderia A de acerto, B de bom, C de certo, D de Deus, E de exato ou faria algo mais sincero. Levantei a mão.

- Joseph? – O professor veio se aproximando.

- Eu já terminei. – Entreguei a prova.

- Mas está quase em branco. – Ele olhava a prova rapidamente. – Você vai me entregar assim mesmo? – Evitava olhá-lo diretamente, já não era a primeira vez que estava pisando na bola. – Na semana passada você dormiu na hora de fazer a lista de exercício e agora isso, vai me entregar em branco?

- Eu não sou bom em matemática.

- E vai desistir? – Já conseguia imaginar todo o sermão sobre perseverança que vinha na sequência. Olhei pela janela e Anna parecia impaciente.

- Posso ir ao banheiro? – Perguntei interrompendo sua inspiração que precedia um longo discurso. – Jogo uma água no rosto e volto pra tentar, pode ser? – Ele balançou a cabeça positivamente, parecia
contrariado, acho que seu faro de professor pressentiu meu plano.

Saí e nem fiz questão de disfarçar a alegria. Peguei o corredor que dava acesso ao pátio e, rapidamente, estava na presença de Anna.

- Você não devia estar fazendo a sua avaliação de português? – Perguntei ao vê-la sorridente demais.

- A professora encrecou de novo com a minha letra. – Ela mascava um chiclete gasto e mexia no piercing do nariz. – Disse que se eu não melhorasse a caligrafia nem precisava fazer a prova.

- E você?

- Eu estou aqui, já dá pra saber qual foi a opção escolhida.

- E por isso me arrancou da prova de matemática? Eu dormi no dia da lista, precisava desse ponto de
qualquer jeito.

- Você é péssimo, Josh, os números não são seus amigos – Ela enroscou o braço no meu. – e eu preciso te mostrar uma coisinha.

- Mostrar o quê?

- Não me faça nenhuma pergunta, só me deixe te guiar.

Fomos nos distanciando dos pavilhões onde ficavam as nossas salas e andando em direção a algo que, pela certeza de seus passos, não estava muito longe. Anna me contou dos pepinos que arranjou na infância por conta das confusões que sua caligrafia ruim causava. Eu conseguia acreditar em todas aquelas histórias, pois, certa vez, ela escreveu “cachorro” e eu li “dentista”.

- Na boa – Estávamos atravessando a quadra. –, acho que eu deveria voltar e terminar a minha prova.

- Ninguém deve ter sentido a sua falta. – Ela falou me puxando para atravessar o jardim do zelador
Gonzaga.

- O Morcego, com certeza, está se perguntando onde eu fui. – Fiquei parado.

- O que foi? Empacou?

- É o jardim do Gonzaga, você sabe que ele odeia que passem por aqui.

- Ele me ama, tenho moral com ele, a gente passa e dá um tchauzinho, não pega nada. – Odiava quando ela usava essa expressão, pois sempre vinha algo que comprovava que “pegava” sim, e “pegava” da pior maneira possível. Certa vez, o seu “não pega nada” nos levou até a sala da diretora para retirarmos uma advertência que ela tinha tomado por falar que o professor de educação física não sabia a diferença entre uma xícara de café e um anabolizante, já que ele tomava os dois.

“Ela sempre guarda nessa gaveta aqui, não pega nada.” Essas foram suas últimas palavras antes da
diretora, furiosa, abrir a porta e nos pegar no flagra.

- E aí, Gonzaga, qual é a boa? Como vai seu cachorrinho? – Anna invadiu a sala dele, pegou um pedaço de pão e comeu. Gonzaga era uma rapaz bem atlético, já tinha mais de cinquenta anos, mas não aparentava.
Estava vidrado no seu radinho e na estação que passava várias dicas de saúde.

- Você não deveria estar na aula. – Ele foi tirando Anna de dentro do lugar. Eu acompanhava tudo da porta, só fiz chegar um pouco para trás, dando espaço para ela sair.

- É que vai rolar um fenômeno da natureza e isso faz parte de uma pesquisa de biologia. – Ela era muito boa em arranjar desculpas convincentes.

- E por que nenhum outro aluno está aqui?

- É um trabalho em dupla. – Ela me abraçou lateralmente. – Cada um escolhe um tema, eu escolhi isso, você sabe como eu adoro astrologia.

- Eu sei lá o que é antrofagia. – Foi impossível segurar o riso. Saímos enquanto ele aumentava o volume do rádio para ouvir umas dicas de como cuidar bem da saúde do coração. – Me deixem em paz, quero ouvir meu rádio e vá pintar esse cabelo, a escola não pode te deixar entrar com esse cabelo!!! – Ele odiava a coloração azul das madeixas de Anna, mas, na verdade, era a forma que achava para mostrar alguma preocupação com ela.

Já estávamos um pouco distante, mas ainda riamos da voz do locutor que apresentava o programa
escutado pelo Gonzaga.

- E como vai a saúde do seu coração, Josh? – Adorava sua perspicácia e seu humor.

- Meu coração segue batendo. – Respondi colocando a mão no peito e simulando os seus batimentos. – E o seu?

- O meu está precisando de um pouco de adrenalina. – Ela saiu correndo, se apoiou em um muro e pulou para o teto de uma casinha onde a escola guardava materiais velhos. Gostava de vê-la em ação, seus cabelos em movimentos, sua roupa esquisita sempre ganhava um rasgo novo por causa dessas loucuras.

- Vamos. – Ela estendeu a mão pra mim. – Precisamos ir lá no topo do prédio central, é lá que está o que quero te mostrar.

- Mas é proibido a presença de alunos. – Falei sabendo que aquilo não faria a menor diferença.

- Você é mesmo uma piada, Josh. – Sua mão continuava estendida. Contrariado, a peguei e subi no muro.

Fomos, cautelosamente, entrando em janelas, subindo escadas, passando por obstáculos e, finalmente,
atingimos o topo do prédio.

- Cansado? – Ela me via apoiar as mãos no joelho enquanto procurava algum resquício de respiração. A última vez que me senti assim foi na minha única tentativa de jogar bola.

“Ô magrelo! Já tá cansado? Você entrou há dois minutos e é o goleiro!!! Alguém substitui esse cara aqui!!!”

- Um pouco, o que você queria me mostrar mesmo?

- Senta aí. – Ela tirou do bolso umas tiras de negativo de foto e um cigarro.

- Você tinha prometido parar de fumar.

- E você tinha prometido que não ia encher mais o meu saco com isso. – Rimos enquanto o isqueiro em sua mão fazia aquele sordido trabalho.

O céu parecia mais perto, mais expressivo. A manhã era pouco nublada, ou melhor, pouco aberta, a
depender do quanto você olha para as coisas de forma positiva. O sol estava diferente, havia uns
pinguinhos azuis ao seu redor. Tinha uma visão ruim e meu óculos, sempre embaçado, não ajudava, mas conseguia perceber aquele fenômeno. Anna era apaixonada por astrologia, talvez tivesse uma boa explicação para aquilo.

- Anna, o sol... – Ela me interrompeu sem nenhuma cerimônia.

- É exatamente isso que eu quero te mostrar. – Me entregou um dos negativos. – Coloque isso no olho e estará diante de algo que mudará a sua vida. – Prontamente, obedeci as suas ordens, era o que eu fazia de melhor. Ao enxergar através do negativo, pude ver uma gigantesca estrela cadente que circundava o sol e ia deixando seus pequenos pedaços pelo ar.

- Uau!!!! O que é aquilo? – A cena era muito linda.

- É a estrela do tempo. – Ela também estava observando-a. – Reza a lenda que as pessoas que conseguirem enxergá-la podem fazer qualquer pedido que será realizado na hora. É uma lenda grega, era assim que os grandes filosofos conseguiam as respostas mais difíceis sobre o universo.

- E isso é verdade? – Sempre fui bastante cético.

- Não custa nada acreditar. – Sua mão ficou mais próxima da minha. – No que você está pensando agora? O que mais quer pra sua vida?

- Deixa eu ver. – Percebi que seu corpo também estava mais próximo e a fala rude e objetiva tinha dado espaço a um tom de voz doce e um olhar meio envergonhado. Pensei naquela situação, no que me afligia, na amizade de Anna, até no amigo Morcego eu pensei. Tudo fluia na minha cabeça e, se aquilo fosse verdade mesmo, se a estrela do tempo resolvesse algo na minha vida, eu não podia pedir algo diferente.

- Vou confiar em você. – Peguei a mão dela como se fosse pular de um penhasco.

- Pode confiar. – Anna fechou os olhos e esperou o meu pedido.

- Quero ser o menino mais inteligente do mundo.

- Você quer o quê? – Nem consegui responder aquela pergunta indignada de Anna. De repente, o mesmo brilho que rodeava o sol começou a me rodear. Estava sentindo uma pressão estranha dentro do meu corpo e uma dor de cabeça forte me dava a impressão de que minha cabeça iria explodir.

- Anna, me ajuda, Anna, me ajuda!!!!!

- Josh, você está bem? – Fui desfalecendo, a última coisa que pude sentir foi o abraço dela e, após isso, tudo escureceu.

...Foi assim que me tornei o menino mais inteligente do mundo. Aquela estrela tinha poderes de verdade. Esse dia foi destacado na carta que Anna me mandou. Ela grifou a data: 21/10/2015, na época, estávamos quase no encerramento do ano letivo. Me senti mal ao perceber, tardiamente, o que ela realmente queria me levando ao topo daquele prédio. Acordei depois na cama do zelador Gonzaga e ela estava numa mistura de preocupação e raiva. Como eu ia imaginar que eu deveria pedir o seu amor? O que mais me preocupava naquele momento era ter ido mal na avaliação de matématica, oras. Para o meu bem, ter escolhido ser o menimo mais inteligente do mundo me deu a possibilidade de ter construído uma máquina do tempo para poder voltar ao passado e desfazer essa grande burrada.

- Será que isso vai dar, certo? – Morcego estava sentado me vendo fazer os últimos ajustes na máquina do tempo.

- Espero que sim ou acabarei em alguma galáxia qualquer onde seria impossível comer um  hambúrguer.

- Isso não me faria a menor falta. – Morcego e toda a sua família eram vegetarianos. Ele sempre teve vários problemas com isso na cantina da escola.

“Moça, será que você pode me vender um pastel de carne sem carne?”

- Isso me deixaria infeliz. – Apertei o botão para começar a carregar as forças da máquina. – Temos que dar um nome a ela.

- Boa, boa, coisas importantes precisam ser nomeadas. – Ele se levantou e começou a passear ao redor da máquina.

- Tenha o prazer. – A progressão de energia estava exatamente do jeito que imaginei.

- Hal 9001?

- Não sei se é o melhor nome do mundo. – Coloquei a data equivalente.

- 21/10/2015? Foi o dia que vocês viram a estrela do tempo?

- Exatamente, tava escrito na carta que ela me mandou.

- Você podia voltar dois dias antes, quando o Baseado morreu. – Baseado era o gato do Morcego. Era
querido por todos da família, mas ele tinha uma relação especial com aquele gatinho. O pobrezinho nos deixou de uma forma muito trágica, até me entristece lembrar.

- Eu não posso, Morcego, não posso mexer na linha do tempo, se o fizer, acabarei mudando alguma coisa do futuro, tenho que voltar exatamente no momento em que subimos no telhado do prédio. – Estava ajeitando o horário também. – Não posso correr o risco de mudar nenhuma vírgula do tempo ou estragarei a minha única chance de ficar com Anna. – De repente, um enorme brilho começou a preencher a base da máquina.

- Joseph, você conseguiu!!! – Morcego olhava fascinado para a luz azul que saia de dentro da máquina.

- Adeus, meu caro amigo, eu volto pra te contar como foi. – Falei ao me aproximar do feixe de luz.

- Tecnicamente – Ele sorriu. –, eu já sei o que vai acontecer.

Entrei na máquina e senti cada parte do meu corpo sendo desfragmentada e arremeçada violentamente na direção do vazio. Não era uma boa sensação, parece que o tempo não gosta que mexam com ele.

...

- Joseph? Joseph? – Uma voz impaciente chamava o meu nome. – JOSEEEEPH!!!!, você já viu seu
desempenho em matemática para estar dormindo na hora de fazer a lista de exercício?

- Professor, o Morcego tá dormindo também. – Uma voz da frente não tinha problema em dedurar seus colegas.

- Você também, Thiago? – O professor ficou mais irritado ainda. – OS DOIS VÃO DESCER AGORA PARA A DIREÇÃO!!!!!

Eu não entendi nada, minha sonolência não me deixava raciocinar muito bem. Deveria ter caído
exatamente no dia da estrela do céu, o que deu de errado?

- Morcego, que dia é hoje? – Perguntei enquanto caminhávamos lentamente até a sala da diretora.

- Olha no cabeçalho da sua apostila. – Ele estava temeroso quanto ao castigo que iriamos sofrer.
Olhei a data e batia com a que eu tinha colocado na máquina: 21/10/2015.

- O que foi que deu errado? – Deixei meu pensamento falar alto.

- Tudo, nós estavámos dormindo na sala, lembra?

- Não, não é isso, é que... – A parede da escola estava toda decorada com as frases de despedida. Se bem me lembro, todo final de ano era marcado com as mensagens dos alunos contando como o ano tinha sido bom e desejando positividades para o ano que chegará. Dei de cara com a mensagem de Anna.

Infelizmente, não pude entender muito bem o que estava escrito.

- Você já colocou a sua? – Morcego me viu vidrado lendo a frase dela.

- “Um ótimo ano para todos os homens, mulheres e dentistas?” Por que a Anna está desejando algo para os dentistas? É a profissão que ela quer ser?

- Está escrito cachorro, Joseph, ela tá desejando um ótimo ano para os cachorros, não sabe que ela é
vidrada em animais?

-É que a letra dela é um horror e... caramba!!!! Não era 21, era 27, dia 27.

- O que, Joseph? Essa hora da manhã e você já está bêbado?

- 27 de outubro. – Minha mente estava explodindo, como eu não pude perceber, era a péssima caligrafia da Anna me enganando de novo. Caramba, que besteira que eu fiz!!!!!

- Vocês ainda estão aí? – O professor apareceu na porta furioso e veio na nossa direção. – PARA DIRETORIA AGORA!!!!! PARECEM QUE NÃO QUEREM NADA PRO FUTURO!!!

- Eu até quero. – Pensei. – Só não sei se vou conseguir...


Espero que vocês tenham gostado do primeiro capítulo e que assim como eu tenham ficado muito curiosos para saber a continuação. Abaixo está uma minibiografia do autor: 

Anderson Shon é escritor e professor. Lançou o livro Um Poeta Crônico no final de 2013 e, desde lá, já apareceu em coletâneas de poesia e de contos, já deu oficinas e é figura certa nos diversos saraus de Salvador. É apaixonado por quadrinhos, filmes esquisitos e músicas que ninguém ousa ouvir. Prepara seu segundo livro para o segundo semestre de 2016 e evita comer alface no almoço para não precisar dormir pela tarde.
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