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[Resenha] A Filha do Sangue - Anne Bishop

>> sexta-feira, 29 de maio de 2015



A Filha do Sangue (Ed. Saída de Emergência, 2014) é o primeiro volume da Trilogia das Joias Negras, da americana Anne Bishop, a ser publicado no Brasil. No início, uma obra confusa, com excesso de personagens que são designados por vários nomes e títulos, de tal forma que, no início, o enredo debanda desconfortavelmente aos encontrões ao invés de fluir harmoniosamente. Depois de uma centena de páginas, nos acostumamos com as ideias da autora e começamos a ver beleza e boa escrita, mas então nos deparamos com algumas ousadias literárias relacionadas a crianças sendo submetidas a brutalidade sexual, que definitivamente não vai agradar a maioria. Numa só palavra: difícil!

Se crueldade com crianças já não fosse suficiente, o que dirá se souber que esse livro se passa no inferno? Não só nele, na verdade. Há vários outros Reinos no submundo, todo um rol de regiões vizinhas que são relacionadas umas as outras pela “teia”, espécie de rede de caminhos e vias etéreas que podem ser percorridas por quem tiver as habilidades certas. Algumas desses Reinos parecem o mundo em que vivemos, outras são mais “infernais”, no sentido estrito, mesmo. Isso é esquisito pacas, já que temos que dissociar “terreno” e “trevas” da ideia milenar preestabelecida de realidades conceitualmente díspares, separadas uma da outra pela morte física dos ímpios. Há mortos, demônios-mortos e coisas do tipo que interagem, conversam e “vivem” com outros personagens que não o são.

Os personagens andam e se comportam como se estivessem em cidades (Hayll, Pruul, Chaillot, seriam o quê?), usam roupas, amam, temem e odeiam. Mas temos demônios com asas membranosas (embora nem todos sejam assim), e alguns dos personagens têm nomes como Daemon, Saetan e Lucivar, para não deixar dúvidas do que estamos falando. Não dá para entender o intuito da autora ao imbuir às regiões inferiores tal semelhança com o mundo terreno. Não é preconceito religioso, mas é que não é uma ideia boa. Fiquei invocado. É confuso, pois às vezes vemos degradação, atrocidades e desertos quentes onde há escravos, uma possível representação do inferno que conhecemos, mas conjugado com uma outra região onde há ruas movimentadas, vitrines e transeuntes fazendo compras! 

Há roupas, carroças, casas com telhados, livros, brinquedos, mesas com talheres e pratos, jardins, portas com maçanetas... E há santuários que transportam para outras regiões, há fantasmas, há magias que fazem as coisas desaparecer no ar, há consumo de sangue humano para rejuvenescer... Parece que estamos num mundo vitoriano, mas não conseguimos identificá-lo corretamente ou qualificar seus elementos, porque temos tantos príncipes demoníacos, Senhores das Guerra, Lordes Supremos, Senhores das Trevas, demônios-mortos, Rainhas, feiticeiras etc. que ficamos achando que aqueles demônios todos formam uma sociedade organizada num universo paralelo. Não entendemos estar aqui ou ali e isso faz diferença. Chocar e confundir parecem ser o jogo adotado pela autora.

E quanto aos sentimentos? Diabos são do mal, certo? Não. Em A Filha do Sangue. Eles tem sentimentos, compaixão, alegria, gratidão... Oi? Bishop recriou uma mitologia baseada em preceitos e arquétipos preexistentes e reinventou a roda, por assim dizer, e embora seja possível identificar uma boa história, o trabalho mental que é redefinir conceitos e reaprender toda uma mitologia é dispendioso e, muitas vezes, irrelevante para o entendimento final. Tento me libertar de minhas amarras mas é necessário muita disposição para começar a aproveitar realmente a leitura. Por que elaborar um arcabouço tão complicado para uma história? A literatura em si acaba perdendo com tanta prolixidade, pois a atenção do leitor é desviada para algo mais que não o fundamental: a leitura.

Além dos títulos, como “Príncipe dos Senhores da Guerra”, “Viúvas Negras”, “Sacerdotisas das Trevas”, “Sacerdote Supremo da Ampulheta” etc. há os “Sangue” e os plebeus. Os Sangue são a elite, formada por portadores de joias de poder mágico, como ametista, topázio, rubi etc., indo das joias mais claras para as mais escuras. Quanto mais escuras e brutas mais forte é seu portador, mas essas pedras, recebidas num ritual onde uma criança passa para a idade adulta, as “Cerimônias de Progenitura”, mudam quando amadurecem e participam da “Cerimônia de Oferenda às Trevas” tornando-se mais escuras.

A sociedade é dominada pelas mulheres (ou fêmeas), e elas chegam muitas vezes a escravizar os machos. Mas não dá para entender como demônios como o Senhor Supremo do Inferno, Saetan, se submete a uma feiticeira como Dorothea ou Hekatah, sua atual e odiada consorte. Daemon, um Príncipe dos Senhores da Guerra, é descrito num glossário inicial do livro como o mais poderoso dos machos, mais até que Saetan. Então é de perguntar que Senhor Supremo é esse que não é supremo? Anne Bishop embaralha as ideias dos leitores com o mais obscuro prazer, como se tivesse nascido para isso.

Daemon é um filho enjeitado de Saetan, poderosíssimo, um escravo sexual de uma feiticeira Viúva Negra, de nome Dorothea, mas como um escravo pode ser tão poderoso e continuar escravo? A resposta aparentemente reside em aneis sexuais de controle mágico ao redor do pênis (uuuui!) que podem causar dores indescritíveis. Eles são controlados pela vontade das Rainhas da corte de Dorothea, a quem os machos escolhidos são obrigados a servir. O livro é muito sensual e gira em torno desses escravos, seu “trabalho”, seu universo de prazer, luxúria e ódio a essa situação degradante (sim, temos demônios com pudores aqui!). Não há nada escatológico ou explícito demais, mas as insinuações são algumas vezes chocantes. 

O livro começa com uma festa (Duas páginas de A4 e só agora vou começar a falar da história!) Alguma coisa já nos é explicada sobre as cortes infernais. A autora nos conta um pouco sobre as classes ali representadas, sobre a rivalidade entre Daemon e Lucivar, a importância de Dorothea, uma Rainha do reino mais influente, Hayll, e uma previsão é feita por uma vidente de nome Tersa, de que a “Feiticeira” estaria chegando. Uma visão tão terrível que levou Tersa a decair para o Reino Distorcido (o que, imagino, ser o inferno do inferno. Aguenta aí). Para um bom entendimento, é importante dizer que feiticeira, com “f” é qualquer feiticeira mesmo, mulheres capazes de realizar magias, de se deslocar pela teia arcana de acordo com as joias que usa, se ligar aos Senhores da Guerra para gerar descendentes dos Sangue etc. Já Feiticeira, com “F”, é só uma. Alguém que viria para botar sob os pés todas as demais. Há um fundo muito original e instigante na narrativa de Bishop.

Os homens, sempre chamados de machos, odeiam as Rainhas, que os oprimem e humilham. Eles torcem para que o dia da chegada da Feiticeira se realize. Nesse dia se vingarão de todas as fêmeas e servirão somente à Ela. Daemon é um dos personagens centrais. Um escravo obrigado a servir Rainhas e feiticeiras onde quer que Dorothea ordene. Lucivar também é um escravo, irmão bastardo de Daemon, mas é violento demais. Jamais pode estar no mesmo local que Daemon pois ambos sempre saem no braço. Já Saetan é o Sacerdote Supremo da Ampulheta, o Príncipe do Inferno.

Setecentos anos se passam desde o dia em que Tersa revelou a vinda da Feiticeira. Nunca é dito que alguém é imortal, apenas que os Sangue mais poderosos têm vidas mais longas. Saetan, por exemplo, já viveu cinquenta mil anos, está velho e tem a saúde debilitada. Mas isso não o impede de, num belo dia, receber a notícia de que borboletas foram vistas em Chaillot. Isso é um absurdo, sob todos os aspectos! Não existem borboletas no inferno, e elas são as mais coloridas e vivas que se pode imaginar. Daí, para que descubra que a Feiticeira finalmente chegou é um pulo, mas ela ainda só tem sete anos. Seu nome é Jeanelle, é uma menininha fofa e está viva!

Ninguém vivo pode estar no inferno. O choque é imediato. Saetan começa então a despender todos os esforços para ser bem visto pela garotinha. Sabe que o futuro de tudo depende de poder treinar a Feiticeira suprema da melhor forma possível para que ela se torne uma boa Rainha, resgatando os Sangue de sua devassidão e decadência (um paradoxo, eu sei, mas lembre-se que esse inferno aqui não é aquele que você conhece). Ele deve defender a menina dos que podem desejar seu mal, principalmente Dorothea, que quer continuar poderosa. Nesse momento, confronta-se até mesmo com Daemon, seu filho, mas não demora muito para ver que Daemon também quer o bem da pequena Jaenelle.

Alguns anos vão se passando nesse meio tempo. Jaenelle sempre aparece aqui e ali, fazendo amizades com outras crianças demônio-mortas, travessuras, provocando maravilhas de cura, viajando magicamente entre Reinos ou se conectando psiquicamente com Daemon e Saetan, agora seu tutor. Todos estão absolutamente assombrados com suas habilidades. Realmente é a Feiticeira quem chegou e Daemon se aproxima da menina, indo morar com sua família e um misterioso sanatório surge em meio a trama. Um lugar que pode impedir que Jaenelle sobreviva e cumpra a profecia.

Um livro realmente muito diferente do que já li. Misterioso, desconfortável e belo. Bishop se revela um ótima escritora. Os próximos da série prometem. Quem quer arriscar?



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