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[Resenha] Tigana - Guy Gavriel Kay

>> segunda-feira, 22 de dezembro de 2014



Não posso me lembrar da última vez que tive de recomeçar a leitura de um livro, após já ter avançado consideravelmente (no caso, fui até a página oitenta), por não estar conseguindo absorver completamente a narrativa, seja por um estilo um tanto quanto confuso (e aí até credito a falha, parcialmente, à preparação do texto por parte da editora), seja por haver uma série de informações jogadas, de forma muito rápida e sem as conexões necessárias para torná-las mais palatáveis. E afirmo que jamais havia feito isso duas vezes, embora na terceira tentativa as coisas já se mostrassem mais fáceis de absorver (Deus é Pai!). Tigana: a Lâmina na Alma (Editora Saída de Emergência, 2013), vem da primeira leva de livros lançados pela SDE no Brasil, e exige um esforço de interpretação um pouco mais apurado, diferentemente do que está acostumado o leitor de fantasia mediano.

A história, basicamente, inicia-se com um flashback que marcaria profundamente a história nesse mundo fictício, batizado como península da Palma, baseado numa realidade com toques e nomes italianos e nas lutas das suas cidades estado, na idade média. Dito isso, temos que no local travou-se uma batalha sangrenta onde um rei invasor, detentor de conhecimentos místicos, massacrou os locais. Esse rei, Brandin, vindo do império de Ygrath, é inimigo de um outro soberano, Alberico, de Barbadior, e ambos estão subjugando a península, dividindo-a entre si, sob o peso de seus exércitos e sua magia. Bem, isso é o que nos conta o narrador, pois magia mesmo é difícil de encontrar nesse livro. Fico aqui raciocinando se deveria mesmo ser inserido no gênero fantasia, pois ela praticamente não aparece, nem seres fantásticos, nem espadas mágicas ou qualquer coisa do tipo, a não ser pelo fato de que Brandin apagou o nome de uma das províncias da Palma da memória das pessoas, após a morte de seu filho numa batalha.

Misturado a isso temos a introdução do personagem principal, Devin D’Asoli, um jovem fazendeiro com muito talento para a música; ele sai de sua terra, Asoli, no norte da península, e viaja o mundo com uma trupe de artistas. Nessa trupe conhece Catriana, uma linda cantora, um pouco inexperiente na arte, mas extrovertida e geniosa — e linda! Em Astibar, um Duque de nome Sandre, há muito deposto e exilado por Alberico, planeja sua própria morte, com o intuito de invocar o ódio de antigos nobres, inimigos seus, no esforço comum de expulsar ou matar Alberico, o“mal maior”. Esse plano passa pela colaboração de seu filho do meio, Tomasso, um homossexual que finge ser depravado e escandaloso, mas que na verdade é muito ciente de seus deveres e interpreta o papel de bicha louca apenas para que possa assim passar "despercebido", como ameaça aos inimigos. 

Devin segue Catriana durante os ritos fúnebres para os quais foram contratados para cantar. Num aposento secreto no andar de cima da casa, ouvem uma conversa entre alguns membros da família Sandrini, em que se afirma que na vigília, que se realizará na parte da tarde, em uma cabana de caça na floresta, fatos importantes que envolvem essa revolta se concretizarão. Catriana, para “enrolar” Devin, transa com ele (!), com o intuito de que não preste atenção à discussão e assim possa continuar com os próprios planos secretos, junto com um grupo que conheceremos depois, na cabana (cara, muito forçado isso!).

A vigília é então realizada após o caixão ser levado para a tal cabana, Tomasso e seus familiares se reúnem lá, com os dois nobres convidados, inimigos de seu pai, e o contexto é revelado a eles, pois assim “planejou detalhadamente o pai”, pois estão às vésperas do Festival das Brasas, e Alberico não poderia impedir que os rituais fúnebres se realizassem e até permitiria que o corpo do antigo Duque voltasse a Astibar, para a visitação final dos seus antigos súditos.

Entendeu? Tudo isso acontece nas primeiras oitenta páginas, e com um rigor de detalhes que ainda inclui as divindades veneradas pelos habitantes da Palma, as bebidas que gostam, os locais que habitam e vários personagens secundários e suas ações, que nem me atrevo a incluir também nessa resenha, por simples questão de espaço. E, claro, como já citei, há certo despreparo com relação à preparação do texto (paradoxal, não é?), que falha em alguns momentos com a pontuação e exagera na prolixidade de algumas passagens. Aliás, as partes internas das capas trazem um mapa lindo da península. Ótimo, se não fosse o erro infantil de atribuírem erradamente o topônimo Barbadior, o império do leste, à capital da ilha de Chiara, que deveria ser Sangarios, como o próprio livro mostra num outro mapa interno. Ao invés de ajudar, o mapa atrapalha, e muito. Tenha dó, Editora!

Ficaria espantado ao saber que alguém chegou a esse ponto com uma só leitura, tendo entendido certinho, concatenado todos os fatos e reunido todas as pontas, sem qualquer problema. Você conseguiu? Uau. Parabéns! Sinto-me aqui uma besta quadrada, mas como quem está escrevendo a resenha sou eu (e você pode fazer a sua também, esmiuçando brilhantemente todos os fatos com sua perspicácia), vou é tentar explicitar do que estamos falando em Tigana, mas sob minha ótica, óbvio.

Que porra é essa de Sandre se matar para reunir os antigos inimigos na cabana de caça? Não tinha jeito mais fácil? Não dava para trocar mensagens usando o velho truque do espião disfarçado, ou informantes? Que planejamento é esse, afinal, que ele engendrou para reunir os dois nobres, sabendo que “um sexto integrante” estaria presente? Como sabia? Não se fala em magia ou premonição até aqui, na história, para corroborar essa possibilidade. Aliás, como Catriana sabia que os familiares de Sandre se reuniriam naquela determinada sala, onde tem um aposento secreto, naquele determinado horário? Como saberia que estariam lá, no exato dia?

Bem, com o decorrer da trama vemos que não é bem assim, mas há pessoas envolvidas que não poderiam ter concordado com  coisa toda... O descarte de Tomasso, logo no início é um desperdício de bons personagens, sendo que Guy Gavriel Kay não pode se dar a esse luxo, como vemos no decorrer da trama. Chega a parecer que propor um personagem gay não passa de um mero afago ao público LGBT. E o incesto que avassala as existências de Dianora e do irmão, depois (ótimos personagens que acabam por ser introduzidos)? Para que serviu? O autor parece querer chocar e tirar o leitor de sua zona de conforto, mas não consegue incutir valor a esses argumentos. Na verdade, parece que falta planejamento. Planejamento ruim é a palavra de ordem aqui.

A obra, hora editada pela Saída de Emergência, traz um posfácio à edição brasileira que muito elucida esse certo “descontrole” que noto nas páginas de Tigana. Fiz questão de lê-lo antes e depois de terminada a leitura. Fica claro a intenção de fazer uma história com os contornos medievais italianos. Fica também clara a intenção de mostrar como certos “líderes” usam a prática de tentar “mudar a história” com gestos surpreendentes. O autor cita uma fotografia tirada na Tchecoslováquia, quando da Primavera de Praga, uma revolução massacrada pelo regime soviético, no ano de 1968. Ele cita uma fotografia, com dirigentes comunistas, que após a revolução tem um de seus retratados apagado da foto e substituído por uma planta (!), numa rudimentar manipulação fotográfica, numa época anterior ao advento do Photoshop. Apagar uma pessoa seria então um gesto maior que simplesmente matá-la. Essa prática de manipular fotografias era contudo muito utilizada por Stalin, em seu cruel regime que reduziu a União Soviética a um continente surreal no mundo. Fotos desse tipo há aos montes. Procure no Google para saber mais.

Num trecho anterior, o autor diz que antes de começar a escrever Tigana, a única imagem que tinha em mente era uma reunião realizada às escondidas, numa cabana de caça, no meio de uma floresta, que tinha uma pessoa a mais, do ponto de vista dos presentes, sentada numa janela. Exatamente a cena retratada no final daquelas oitenta páginas iniciais do livro. Ora, o livro todo foi escrito para arcabouçar essa cena? Sim, foi. Isso e mais a ideia central de que alguém (ou, no caso, um povo inteiro), pode ser apagado da história pela simples vontade de um tirano. O esforço do autor para tornar o livro um objeto coeso e único tropeça continuamente nas intermináveis reflexões dos personagens sobre a perda de identidade dos indivíduos que nasceram em Tigana, no expurgo de uma história, com o simples esquecimento de uma nome, ato da magia vingativa de Brandin. Por que raios o autor foi meter isso tudo numa obra de fantasia, fica no reino no insondável. A intenção pode ter sido boa, mas o ditado já dizia que “o inferno está cheio de boas intenções”.

A mim, parece, que Guy Gavriel Kay não alcançou os objetivos a que se propunha. Temos um livro amarrado, no sentido de que não deslancha, desamarrado, no sentido de ter muitas pontas soltas (que prometem ser elucidadas no próximo volume da série, parece), e personagens complexos demais, que acabam, por si só, retirando a história do foco e restringindo-a a si mesmos. Tigana é um livro de personagens, com uma temática absurdamente densa ao redor de si, com poucos diálogos e sem a desenvoltura da boa fantasia. Como disse antes, inserir a obra na literatura fantástica é estranho, parece até um descuido. Ficaria melhor como uma metáfora, mais a George Orwell, do que ocupando o lado esquerdo de obras como O Senhor dos Anéis, de Tolkien, ou A saga da Espada de Shannara, de Terry Brooks, essas sim, fantasias legítimas.





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