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Cartas a um Jovem Escritor - Mario Vargas Llosa

>> terça-feira, 12 de novembro de 2013



Algum tempo atrás um jovem escritor sentiu uma grande necessidade de melhorar. Eu olhava meus textos e conseguia ver a diferença de outros que lia, fossem na internet, nas revistas e principalmente nos livros que devorava com paixão. Para mim, escrever chegava a um patamar em que exprimir ideias e contar histórias era uma fase já vencida. Havia aprendido a cometer meus textos, mas ainda faltava técnica, a habilidade de escrever melhor, como os mestres, como os grandes nomes. Precisava descobrir o que fazer e como. E como saber o que estava errado, o que estava certo e o que poderia melhorar? Uma das minhas primeiras aquisições em teoria literária foi exatamente Cartas a um Jovem Escritor (Editora Campus – Elsevier, 2008) de Mario Vargas Llosa.

De cara era um Prêmio Nobel. Era também um escritor de quem já tinha lido Lituma nos Andes, numa edição da Companhia das Letras, de 1994. Era uma fase em que ler os clássicos era essencial pois, por mais que tivesse lido Monteiro Lobato na infância, por mais que esmiuçasse as enciclopédias de mitologia de minha casa, por mais que devorasse desenhos animados tipo Caverna do Dragão, games como Diablo e Warcraft e gibis de super-heróis, ler livros bem escritos era essencial. Uma coisa que vi cedo foi que um escritor de literatura fantástica não se construiria se eu lesse apenas livros de literatura fantástica. Se meu objetivo era escrever, tinha que ler livros de quem já sabia fazer isso, e era essencial que soubesse fazer isso bem!

Em Cartas a um Jovem Escritor, Vargas Llosa finge responder cartas que o leitor lhe enviou. De onde será que ele tirou isso, não é? Vargas Llosa é um gênio, então imagine quantas vezes ele não deve ter respondido as mesmas perguntas, sanado as mesmas dúvidas, esclarecido as mesmas questões de jovens aspirantes das letras, em palestras, encontros, feiras e em cartas mesmo. Nem é preciso pensar muito para perceber como deve ter sido uma simples tarefa de recolher alguns de seus rascunhos já prontos e resumir o que fosse mais importante, nesse livrinho deliciosa e absolutamente fácil de ler (e entender).

A narrativa epistolar sempre começa pela pontuação de um técnica de escrita, onde ele nos mostra como fazer o que está nos livros, sempre com exemplos de sua leitura predileta. Passeamos então por trechos de Melville, Sartre, Cortázar, Flaubert, Garcia Marques, Borges, Hemingway, Faulkner, Kafka, Guimarães Rosa e uma grande quantidade de outros titânicos nomes da literatura moderna. No livrinho podemos descobrir, ou lembrar, ou melhor definir, ou simplesmente recordar, pelas mãos do mestre, as noções de parábola, tempo, narrador/espaço, perceber o que é poder de persuasão, entender o que vem a ser estilo, os níveis de realidade de uma obra, as guinadas e os saltos qualitativos, e ainda vislumbrar curiosidades técnicas como a caixa chinesa, os dados escondidos e o que vem a ser vasos comunicantes (se você gosta de George R. R. Martin, já viu isso muitas vezes, embora não saiba ainda do que eu estou falando). 

É espantoso como Llosa desce ao nível reles de um novato e explica tão surpreendentemente bem cada uma dessas inestimáveis técnicas. Como um mestre de seu quilate pode se preocupar conosco, que nem sabemos direito a própria língua, a ponto de se tornar professor e, mais que isso, amigo, a ponto de entender nossas dúvidas, as aflições e as dificuldades que todos nós escritores um dia passamos. É claro que ele se põe no lugar de cada um de nós. Não se exime de retornar ao aprendizado enquanto ensina e se deleita com isso, pois a literatura é seu pasto, sua natureza e seu céu.

E depois de nos ensinar maravilhosamente como fazer um bom romance, depois de nos dizer e dar o exemplo que ler é fundamental para o escritor (todos nós somos, de Vargas Llosa a Albarus Andreos, iguais enquanto leitores!) ele termina o livro com esse excerto que reproduzo abaixo. Não posso deixar e fazê-lo.

“...a técnica, a forma, o discurso, o texto, ou como queira você chamá-lo – os pedantes inventaram muitos nomes para algo que qualquer leitor identifica sem nenhum problema –, é um todo sem costuras, em que separar tema, estilo, ordem, pontos de vista et cetera equivale a realizar uma dissecação em um corpo vivo. O resultado é sempre, mesmo no melhor dos casos, uma forma de homicídio. E um cadáver é uma reminiscência pálida e ilusória de um ser vivo, pulsante e pensante, não invadido pelo rigor mortis nem indefeso ante do ataque dos vermes.”
(p. 179)
É que a literatura, quando esmiuçada tecnicamente para ser explicada, perde a verve literária. É um paradoxo que devemos entender. A fantasia e a paixão são postas de lado para nos domar o espírito porque quando lemos devemos nos libertar e voar livre. Ele insiste então que a técnica quando utilizada, transcende qualquer academicismo e pontua que o enfoque do escritor é um: “seduzir”; e do leitor é outro: “apaixonar-se”. Torna-se parte da experiência única que cada leitor faz ao se debruçar sobre a literatura.

Finalmente, Llosa se despede, como um correspondente que nos respondeu cada uma das cartas que hipoteticamente enviamos. Ele sabe que toda a orientação, por mais minuciosa, por mais leve que tenha sido seu ensinamento, pode causar estranhamento nesse ou naquele aspirante as letras. Ele sabe que a técnica, quando encarada por um escritor desavisado, pode assustar e bloquear um esforço criativo. Então diz:

“Querido amigo: o que estou tentando dizer é que você deve esquecer tudo o que leu em minhas cartas a respeito da estrutura dos romances e, simplesmente, partir de uma vez para escrevê-los.”
(p. 181)

É que, se há um grande mal no escritor, é o da ansiedade. O grande mal da página em branco, da espera pela suprema inspiração que lhe renderá quinhentas laudas de genialidade. Em outro textos vida afora aprendi que não há ninfas soprando as linhas que garranchamos. Elas vem, sim, mas do esforço da tentativa após tentativa e da experiência do erro corrigido e novamente cometido. Portanto, técnica é algo natural de se obter quando estamos prontos para ela. Conhecemo-las primeiro pelas leituras, vendo como se faz. Vendo como ficam quando empregadas pelos mestres. Já quando é nossa vez de fazer, devemos nos libertar de amarras, de compromissos, de obrigações com a excelência, que só virá com o tempo. Se depois de todo o livro você ainda não souber como fazer, a dica é muito mais importante nesse último trecho. Simplesmente sente-se e escreva. Não há outra forma de ser escritor.



Albarus Andreos
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