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A Maldição de Long Lankin - Lindsey Barraclough

>> quarta-feira, 20 de março de 2013



Sabe o que acho mais legal num livro de terror? É a originalidade de se criar uma nova criatura e isso funcionar como livro de terror. Sim, uma criatura sinistra e feroz, imbuída de alguma animação sobrenatural e demoníaca. Long Lankin é o monstro em questão. Essa é a criatura engendrada por Lindsey Barraclough, uma professora de música que mora em Londres com o marido e os cinco filhos (somente uma mãe experiente para imaginar o que seria a perda de um filho, para criar esta história terrível, baseada numa canção folclórica inglesa). Imagine o bicho-papão, o que ele é? O que faz? Por que é temido? Lindsey vai entregando aos poucos, como uma verdadeira especialista em incutir o sobrenatural debaixo de nossas cobertas, à noite, quando estamos meio dormindo e ainda meio acordados, e de repente temos a sensação de que aquilo está rastejando na escuridão, em algum lugar ali dentro, conosco.

E como um “bom” bicho-papão, Long Lankin ataca crianças, e das pequeninas ainda. É sorrateiro e covarde, ignóbil e... invencível. Ah, sim. Várias pessoas já tentaram deter Long Lankin, mas ele sobrevive. Ficou uma vez pendurado na forca por dois dias e não morreu. Foi atacado com fogo, e quem foi consumido pelas chamas foi seu caçador. Long Lankin foi o amante de uma bruxa e se alimenta da força vital das criancinhas, ele as captura e devora, com seus dentes amarelos.

Por que as pessoas gostam de livros de terror? Bem, essa pergunta já deu origem a inúmeras teses de doutorado. Não é minha intenção explicar isso nessa resenha, mas o clima denso que as histórias sobrenaturais carregam parece influir numa boa leitura. Há muito de psicológico para fazer um texto de terror e isso funciona muito bem em A Maldição de Long Lankin (Bertrand Brasil, 448 páginas, R$ 45,00).

Cora e a irmãzinha, Mimi, foram parar exatamente onde não deveriam. Bryers Guerdon é o local onde um dia Long Lankin surgiu, centenas de anos atrás. Muitas criancinhas foram levadas por ele e Ida Eastfield, a tia avó das meninas, sabe bem o que é isso. Quer de todo o jeito devolver as crianças para o pai, mas ele não pode cuidar delas devido ao trabalho e pelo fato da mãe estar internada num manicômio (e aqui vai uma reprimenda forte à editora Bertrand pela tremenda bola-fora, já que a orelha do livro diz que a “mãe morreu”. Cabe à editora ler o livro que publica para que não cometa erros burlescos como esse).

A casa assombrada em questão é Guerdon Hall, localizada próximo a um pântano. Estamos em 1958, a Inglaterra ainda se recobra dos bombardeios infligidos pelos alemães na Segunda Guerra Mundial. Cora e Mini, apesar da rejeição da tia fazem amizade com dois meninos do local, Roger e Peter. É encantador como Lindsey Barraclough consegue nos transmitir o ambiente de brincadeiras, brigas e mau humor das crianças, o relacionamento de umas com as outas, suas travessuras e curiosidade explosiva. Lindsey só pôde escrever esse livro sabendo bem o que as crianças fazem, pensam e como agem. É um retrato absolutamente fidedigno. O transporte para a infância funciona tão bem que nos metemos na lama, brincando com elas e só então nos apercebemos que estamos juntos também para o medo, o perigo é quase real! Somos uma das crianças que Long Lankin pode pegar, rastejando de quatro como um cão.

A autora consegue transmitir a tensão que Cora sente ao investigar o mistério. Por que o pai as deixou, ela e a irmã, naquela casa horrível, caindo aos pedaços, sempre com as janelas fechadas com tábuas e pregos? Por que deve ficar sob os cuidados de uma velha, inamistosa e mal-humorada, que as quer longe dali? Cora quer ir embora também. Tem que cuidar de Mimi, sendo que ela mal tem idade para cuidar de si própria. Ela sofre com isso e sente raiva. Além de tudo, há fantasmas na casa! Cora leva o leitor junto dela para os corredores escuros e quartos fechados. Estamos com ela e Roger quando descobrimos que um crime horrível foi cometido ali dentro. Entretanto, algumas peças começam a se encaixar.

O livro é escrito curiosamente em primeira pessoa, saltando aleatoriamente de Cora para Roger, ou deste para Ida Eastfield e Cora. Cada capítulo traz o nome do narrador. Um ponto contra é que isso não parece ser muito útil à trama. A mudança de foco não muda nada já que não mostra exatamente a visão do personagem sobre o assunto, como poderia sugerir, mas se constitui apenas numa sequência dos acontecimentos do capítulo anterior, geralmente de forma linear. Parece, no final, um artifício meio sem função. Já um ponto interessante, é que para dar uma sensação de temporalidade, quando Ida fala de um outro tempo, quando ainda era solteira, seu nome aparece nos títulos como Ida Guerdon, e não Eastfield. Se isso fosse algo mais utilizado, justificaria melhor a mudança de narrador-personagem adotada pela autora, de um capítulo para outro.

Tia Ida quer que as meninas evitem a igreja, quer que elas permaneçam com as portas fechadas. Por quê? É onde Cora nos leva nas suas investigações entremeadas com os momentos de frieza que uma menina pode ter ao ser abandonada e maltratada. Ela se torna forte, sem querer, e Roger é seu arrimo. Ele é quem abre as portas para Cora ir adiante, um ajudante nas suas aventuras. É Roger quem apresenta seu vilarejo para a menina, as pessoas com quem falam e que vão acrescentando novos elementos à trama.

Ficamos aterrorizados quando vamos caminhando no livro, muito bem escrito. Vamos descobrindo a origem de Long Lankin, descobrimos por que Guerdon Hall é assombrado, e por que Ida Eastfield age como uma bruxa velha e malvada. Na verdade, o mal que a aflige é o mesmo que levou a mãe das meninas ao manicômio. E este é o mal que quer levar Mimi, se Cora não puder evitar.

Ficamos de respiração contida acompanhando o desenrolar dos fatos. Até chegarmos ao final, eletrizante. Um ótimo livro juvenil de terror. Ótima opção para uma leitura envolvente e prazerosa.

ALBARUS ANDREOS


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