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Não Conte Para a Mamãe - Toni Maguire

>> segunda-feira, 30 de julho de 2012



- Srª Trivett, de que as meninas são feitas?
- Ora, Antoinette, quantas vezes vou ter que repetir? 
De açúcar e canela, é claro, e de todas as coisas boas!
Pág. 22


Em 2008, o mundo foi ‘sacudido’ por uma violenta notícia: Elisabeth Fritzl foi sequestrada e mantida presa, pelo próprio pai, por 24 anos. Com ele, teve sete filhos. Ela era estuprada constantemente, no porão de casa, e sua mãe alegou nunca ter desconfiado de nada. Apenas achou que ela tinha fugido de casa e nunca quisera entrar em contato.

Toni Maguire viveu algo parecido. Foi estuprada, seviciada pelo pai, dos seis aos quatorze anos. A diferença é que ela tinha certa liberdade, mas estava presa num silêncio aterrorizador. Uma vez tentara contar à mãe, que lhe disse para nunca mais repetir um absurdo daqueles. E diante das ameaças do pai, de que ninguém nunca acreditaria nela e de que no fim ela seria a culpada de tudo, Toni se deixou acreditar naquelas palavras. Ela foi coagida e teve um dos direitos mais antigos do homem (Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante) violentamente negado.

Os anos iam se passando, à medida que ficava mais velha e o corpo de menina se transformava no de mulher, a excitação de seu pai aumentava e ele passou a ser cada vez mais cruel. Quando ela aprendeu a dizer não, o castigo piorou. Com medo das surras, ela se deixava submeter, sem gritar, sem chorar... sem deixar ele perceber como lhe afetava. Ela ficava parada, quase alheia a tudo, como um robô. Até o dia em que engravidou e precisou berrar tudo que passou.

É preciso coragem e certa dose de frieza para poder relatar os abusos sofridos. Por relatar anos e anos de abuso. Não Conte Para a Mamãe, de Toni Maguire (Bertrand Brasil, 308 páginas, R$ 34,00) - não ficção -, é um relato chocante de uma criança que convivia com o inimigo dentro de casa e que quando ousou soltar a voz, foi rechaçada por todos, família, amigos, estranhos. Enquanto todas as meninas eram feitas de doces e coisas boas, ela era feita de coisa estragada. Ela tinha certeza! Mas, quando seu pequeno mundo desabou, ela precisou crescer e se tornar forte. Esquecer todos e se concentrar em si.

Depois do que pareceu uma eternidade, ele soltou um gemido e saiu de mim. Senti uma substância quente, molhada e grudenta gotejar sobre minha barriga. Ele jogou um pedaço de saco em mim.
- Se limpe com isso.
Sem dizer nada, fiz o que ele mandou.
As palavras que se seguiram estavam destinadas a se tornarem o refrão dele:
- Não vá contar para a mamãe, minha menina. Isso é nosso segredo. Se contar, ela não vai acreditar em você. Ela não vai mais amar você.
Eu já sabia que isso era verdade.
Pág. 75


A narrativa é feita em dois tempos, Toni já adulta, numa época recente, recordando o passado nos tempos bons e Toni criança, obrigando a adulta a relembrar a parte ‘ruim’. Ela trava uma batalha com ela mesma e, aqui, percebemos o recurso do fluxo da consciência.

A história me fez lembrar outras, como Vida Roubada, mas na verdade, a história de Toni é pior, pelo fato do abuso vir de quem deveria protegê-la. A narrativa é fluida, dá para ler num só fôlego, se não se envolver; mas, se você se envolver – como eu -, à medida que for avançando, na leitura, vai sentir repugnância e revolta com o fato de ‘ninguém’ perceber o que se passa naquela casa. Vai sentir o desespero mudo de Toni, sua impotência e repulsa.

Ela está revivenciando a infância, para poder finalmente enterrar o passado. A leitura é perturbadora, mas Toni tenta enxergar o lado bom, os primeiros anos quando a mãe era amorosa com ela, e se obriga a não odiá-la, porque apesar da omissão, era a única pessoa que sempre esteve por perto. Era sua mãe, por bem ou mal.

Recomendo.

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