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Max Payne e a Síndrome do Capitão Barbosa

>> sexta-feira, 25 de maio de 2012



Vou pedir licença aos leitores do Menina da Bahia para falar de games. Bem... na verdade quero falar de literatura mesmo, mas não posso perder esta oportunidade para tocar num assunto muito discutido no meio literário fantástico nacional: a mania do "the book is on the table".
   
Preciso introduzir aqui um assunto relacionado ao meio literário que vez ou outra retorna aos comentários nas redes: a Síndrome do Capitão Barbosa.
   
Este personagem fictício não existe, mas, ao que parece, está mais perto de vir a existir do que nunca. Este tal capitão, na verdade, é uma referência icônica ao que os escritores nacionais conhecem como aversão ao brasileirismo nos contos fantásticos que parecem sempre necessitar de personagens chamados John, Stuart, Edward ou Jace. Mas por que não João, Felipe, Zé ou Vanessa? Por alguma razão, certos autores dizem que o público não aceitaria um personagem brasileiro lutando contra monstros alienígenas em Porto Alegre, ou um levante de zumbis vagando pelo nordeste de Minas Gerais. Para estes autores que cresceram vendo Star Trek (muitos nem aceitam a tradução "Jornada nas Estrelas" como possível), ficção científica e, por extensão, a literatura fantástica em geral, não combinam com nomes em português. Portanto, os próprios locais onde a literatura fantástica pode existir, excluem, via de regra o Brasil: vampiros devem ficar em Londres ou, no máximo no estado de Washington, nos Estados Unidos; uma invasão alienígena deve acontecer sempre em Nova Iorque e Goodzila deve, pela milésima vez, destruir Tóquio.

Será que André Vianco, em cuja excelente palestra estive presente, na Bienal do Livro de Minas - 2012, meteu os pés pelas mãos ambientando seus romances de vampiros em São Paulo, Santa Catarina etc.? Bem, os números revelam que não. São mais de setecentos mil livros vendidos desde 1999, quando terminou Os Sete (Editora Novo Século, 2000), seu maior sucesso dentre mais de uma dezena de obras.
   
Mas se os brasileiros tem algum tipo de reserva quanto as suas origens, os norte-americanos (que não são nem um pouquinho bobos) se aproveitam para ganhar a grana que nós não temos a capacidade de ganhar. Tropa de Elite passou por lá também e vendo a oportunidade mercadológica dentro dos próprios Estados Unidos, os gringos resolveram ambientar um videogame inteiro em São Paulo.
   
Nunca fui fã de jogos de tiro, sou mais os de RPG e estratégia, passeando por alguns adventures, vez ou outra, mas Max Payne 3 (Rockstar, 2012) ressuscita o ex-policial americano, Max Payne, que teve uma vida miserável regada a bebidas e barbitúricos. O cara acaba sendo contratado como segurança particular de uma família de posses da capital paulistana e se envolve com corrupção, tráfico e assassinato, bem comuns ao Brasil como é o futebol, a caipirinha ou a popozuda.
   
Há a descoberta de um país cheio de anacronismos que nós, cidadãos brasileiros, estamos acostumados a ver para todo lado: favelas dividindo fronteiras com bairros ricos, crianças de rua passando fome e cheirando cola, motoboys e meninos de família viciados em crack, o futebol (a religião mais nacional que a igreja de Edir Macedo) e policiais corruptos que sempre arrumam uma forma de ganhar uma grana extra para a cervejinha.
   
A Rockstar, a empresa idealizadora da franquia Max Payne traz o clima de filme noir americano dos anos 30 para a tela de LCD de seu computador. As cenas de corte são fortes e incisivas, repletas de sombras, sempre contadas com aquela voz de fundo com o narrador em off. Contudo há tiros bem elaborados e movimentação a la Matrix.
   
Os diálogos, muito bem legendados em português do Brasil, são adultos e carregados de palavrões e obscenidades. Max, um gringo em solo brazuca, ouve os brasileiros e não entende patavinas, e o que ele fala ninguém entende também (ótimo isso, pois foge do padrão hollywoodiano de mandar um americano para o Himalaia ou uma cidade submarina cheia de sereias e tritões e, milagrosamente, todo mundo entender inglês!), isso é demais de bom! Mas no bom e velho estilo cowboy, o que fala mesmo no jogo é o cano de seu Colt Pyton .45 e os fuzis automáticos AK.
   
É de se perguntar por que não estamos vendo livros policiais, de terror ou de fantasia, de autores nacionais, nas prateleiras das livrarias. Só André Vianco não basta! Video games ainda não produzimos com a qualidade da produção americana, mas livros? Pode-se ver que a cidade de São Paulo não foi fielmente retratada. É mais uma visão afastada de quem só quer ver os dólares das vendas do produto. A Rockstar conta do jeito dela mas é possível ver locais que existem na capital paulistana (é só logar no Google Earth para ver, afinal), como o Parque Dom Pedro II, a favela do Paraisópolis e o estádio do time fictício “Galatians” (referência ao Corinthians, mas o uso de nomes registrados poderia fazer com que pagassem algum tipo de "direitos" ao Timão).
   
Para quem gosta de jogos de tiro este parece ser um excelente jogo. E, sinceramente, não tenho a menor dúvida que fará sucesso no Brasil, Estados Unidos, Coréia, Holanda... Só não entendo por que, mais uma vez, os americanos tem que vir aqui, nos ensinar o que fazer com o que temos em nossa própria casa! Se no Brasil, até mesmo a baiana teve que ser "inventada" pelos portugueses (não, Carmem Miranda não era brasileira!), não podemos dizer que isso é uma novidade.

Escritores, editores, leitores brasileiros... Acordem! 

ALBARUS ANDREOS

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