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As Crônicas de Gelo e Fogo: A Tormenta de Espadas - George R. R. Martin

>> segunda-feira, 7 de maio de 2012



E cá estamos de novo no meio das estimulantes intrigas, da sensualidade desbragada e da magia obscura do mestre George. A Tormenta de Espadas, de George R. R. Martin (Leya, 884 páginas, R$ 49,90), continua a saga dos Stark, cheio da melhor literatura de fantasia dos últimos tempos.

Vimos que o Senhor de Winterfell, Eddard Stark, caiu ante a corrupção dos irmãos Lannister; após a morte de Robert Baratheon, a sucessão arranjada pela rainha Cersei veio com o filho Joffrey, nascido do incesto dela e do irmão Jaime e, por isso, não considerado como legítimo herdeiro por aqueles que acreditaram nos brados do irmão de Robert, Stannis Baratheon (Stannis recebeu uma mensagem de Ned Stark antes de sua execução e vem a saber da verdade: Stannis seria o sucessor legítimo do Trono de Ferro). Nesta mensagem o adultério de Cersei é revelado, mas como na guerra a primeira vítima sempre é a verdade, muitos acreditaram (por medo ou por interesse) na versão da própria rainha regente: "Stark é um traidor e Stannis um novo usurpador". Stannis contudo quer a coroa, sua por direito de sucessão, mas o irmão Renly se opõe e arregimenta um exército próprio para reclamar a coroa para si; Robb Stark proclama-se rei no Norte, jurando vingar seu pai e, nas Ilhas de Ferro, erguem-se novamente, sob a mão violenta de Balon Greyjoy, os homens de ferro sedentos para tomar o Norte para si, com seus dracares apinhados de guerreiros. Isso para não falar em Viserys Targayen e sua irmãzinha Daenerys, que nunca engoliram a perda do trono de sua linhagem para o usurpador Baratheon. Se não bastasse isso tudo, rumores vindos de além da Muralha, no extremo norte, trazem notícias sombrias sobre criaturas sobrenaturais e selvagens reunidas pelo Rei Além da Muralha, Mance Ryder, e este pelo menos não quer o Trono de Ferro (suas intenções ainda são obscuras nesse terceiro volume da série. Talvez queira só tocar fogo em tudo ao sul da muralha, ou talvez... esteja fugindo de algo!).

Bem, o livro começa aqui... Foi nesse ponto que os livros anteriores nos deixaram, mas ao finalizar Tormenta de Espadas, nada disso continua como antes! Há reviravoltas, mortes, novas uniões e transformações de arrepiar; o que "era" deixa de ser, assim, num estalar de dedos.

Um aspecto interessante neste "As Crônicas de Gelo e Fogo" é que neste mundo caótico em guerra civil, o destino de reinos está nas mãos de... crianças! São as crianças (adolescentes no máximo) que governam! Seria essa uma das razões para o sucesso da série que muitos dizem ser a herdeira de Harry Potter no panteão da fantasia? Talvez, principalmente porque os fãs de Harry cresceram e, meninos e meninas, são hoje homens e mulheres acima dos vinte, na maioria. As Crônicas são muito mais adultas, a linguagem chula e várias perversões sexuais correm soltas, bem como decapitações e violência regada a muito sangue. Tudo bem que, no momento histórico retratado, as pessoas eram já consideradas adultas lá pelos seus quinze anos, mas tirando titio Stannis (o único adulto na disputa do trono do sul), Joffrey Baratheon é um fedelho pré adolescente. Robb Stark não tem ainda dezessete anos (não vou lembrar agora de cabeça todas as idades destes meninos) e tem a mãe, Catelyn Stark, tentando a todo o momento mantê-lo sob suas asas protetoras (Catelyn não quer um rei no norte, só quer seu filho Robb de volta a Winterfell e seu pranto é por juntar o que restou de sua família). Renly, que partiu desta para melhor num dos melhores momentos da série até agora, era bem jovem também, Daenerys Targaryen é uma ninfetinha de uns quatorze anos e para variar, o governo de Winterfell acaba, por algum tempo, nas mãos de Brann Stark, o irmãozinho aleijado de Robb, e ele mal parou de mijar na cama já que tem uns oito anos. Imaginem vocês toda a energia, crueldade, inexperiência e insensatez de crianças, muitas vezes mal educadas, arrogantes e indóceis, comandando reinos e exércitos de homens armados! Por mais que Cersei fosse a rainha regente, não conseguiu impedir o filho Joffrey de mandar o Cão de Caça dividir Eddard Stark em dois com sua própria espada, Gelo; Daenerys, usada pelo irmão Viserys (um janotinha recalcado e perigoso, da idade de Robb) acaba por ser casada com um selvagem dothraki (foi trocada pelo exército dele, na verdade) e acaba por aprender, sob muito sofrimento, a acreditar em certos conselhos úteis dos mais velhos.

Neste terceiro volume vemos também como mestre George gosta de sua heráldica particular de Westeros, o mundo onde se passa toda essa odisséia. Desde o primeiro volume ele não se cansa de enumerar cada Casa, que tem lá suas bandeiras, suas cores e brasões. São veados, homens esfolados, ursos, flores, peixes, lobos etc. Parece ser uma brincadeira particular de George Martin, como se estivesse jogando Medieval 2 - Total War (o game de estratégia da SEGA sobre guerras e conquistas de castelos), onde cada exército é representado por um soldadinho de armadura com um estandarte e todas as tropas de uma facção ostentam, de uma forma ou de outra, uniformes com as mesmas cores. George tem disso, não se apega fielmente à realidade histórica como Bernard Cornwell ou Conn Iggulden. Há magia e dragões; apesar de as pessoas se tornarem adultas cedo, elas atingem oitenta anos como hoje, os exércitos nas suas campanhas, arregimentam rebanhos que nunca terminam (embora a fome esteja por todo lado), as linhagens vem de mil anos (não há uma evolução clara do tempo. Parece que sempre foi idade média lá, em dois... três mil anos, com os mesmos avanços tecnológicos de sempre nas muralhas, espadas, roupas, castelos e tradições). Por mais que tenhamos uma perfeita inserção no mundo de George Martin, Westeros e os Sete Reinos são idealizados. Daí a diferença entre os romances históricos de Cornwell e a fantasia de Martin.

Há até uma distorção um tanto imberbe do autor quanto a magia. Por mais que leia entrevistas e artigos sobre a série, não concordo com a afirmação que As Crônicas de Gelo e Fogo não usam tanto assim a magia, como os livros de Tolkien. Quem escreve isso parece não ter lido os livros. E Martin mesmo diz isso, e parece querer refletir esta afirmação quando coloca expressões nas bocas dos seus personagens que vivem no sul de Westeros quando dizem que os nortistas "são supersticiosos" e não dão atenção aos pedidos insistentes dos Patrulheiros da Noite por recursos e reforços. Como assim supersticiosos? Isso soa meio incoerente nos livros, já que a magia está por todo lado: dragões, o povo verde, sombras assassinas, gente que muda o rosto, mortos que se levantam como zumbis, a ninfeta à-prova-de-fogo Daeneys, a ressurreição de Drogo, os sonhos verdes do menino Josen Reed, a incorporação mental de Brann no seu lobo (e parece que Arya e Jon Snow seguem neste caminho também), Thoros de Myr e sua espada flamejante, Beric Dondarrion e suas "mortes curtas"... então isso é pouco?

Desde o primeiro volume ninguém é o que parece, numa primeira olhada, disso já estamos carecas de saber. Martin cria personagens redondos e incrivelmente factíveis. Tyrion Lannister, que já havia se apresentado como uma antítese de seus irmãos Cersei e Jaime (belos, poderosos, fúteis e vis se contrapondo ao anão feio, solitário, irônico e sagaz), soma ao seu currículo a coragem quando monta a cavalo, apanha seu machado de guerra e vai para luta em duas oportunidades, sendo que na batalha da Água Negra quase parte desta para melhor (um ferimento no rosto o deixa ainda mais feio) e a decência quando (SPOILER!), casado com Sansa Stark à força, decide poupá-la de seu "membro viril" até ela ser mais adulta; Arya Stark, uma menininha esperta e ativa já matou mais de dez até aqui, ao ponto de finalmente ficar espantada com estes números quando defrontada com o menino Ned Darry e este, apesar de ser escudeiro de lorde Beric Dandarrion, jamais matara alguém (achando a pergunta até inapropriada, como deveria ser). Arya, contudo, não quer parar por aí e sua lista inclui mais uma dúzia, pelo menos! O Sacerdote Vermelho, Thoros de Myr, ressurge agora como um personagem em carne e osso, sendo que até os livros anteriores era apenas citado de passagem. Thoros, antes retratado como um fanfarrão, com sua espada flamejante de mentira e suas atuações circenses nos torneios, torna-se real e é um Sacerdote de R'llor, como a Feiticeira Vermelha Mellisande que age na corte de Stannis. Contudo, neste Tormenta de Espadas, parece ser em Jaime que o autor está focando suas forças para agregar um pouco mais de humanidade. De incestuoso, vil, traiçoeiro, assassino de crianças e regicida, ele vai adquirindo profundidade e (por que não?) nobreza, quando George Martin agrega detalhes anteriores à sua traição ao rei Aerys Targaryen. George insere "motivos" para ele agir como agiu. Dá a ele uma simpatia que não tinha antes quando ajuda Brienne de Tart e a (SPOILER!) perda de sua mão deixa-o menos "prefeito".

George só pode ser maluco! Ele arranja finais tão inusitados e imprevisíveis para situações e personagens (e até mesmo, às vezes, os finais não são finais!) que só pode estar procurando sarna para se coçar ou então é realmente um gênio megalomaníaco apaixonado por sua obra. O que ele aprontou neste terceiro volume das Crônicas é absolutamente indizível! Alguns personagens novos se firmam, outros, queridos e apaixonantes se vão, outros se transformam (sem comentários!) e nem sequer cogitamos prever o que virá em seguida.

Como é que um cara consegue manter a gente em ponto de bala para ler o próximo volume de sua saga escrevendo livros tão volumosos? Não consegui cair em um tiquinho que seja de marasmo em um par de páginas que seja, em todos os livros. O alto nível de Tormenta mantém a série no auge.

As Crônicas de Gelo e Fogo:

1. A Guerra dos Tronos
2. A Fúria dos Reis
3. A Tormenta de Espadas
4. O Festim dos Corvos
5. Dança dos Dragões
6. The Winds of Winter




ALBARUS ANDREOS


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