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O Rei Mago - Lev Grossman

>> sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012




Resenha by Albarus Andreos:

Ao terminar de ler Os Magos (Editora Amarilys, 2011, já resenhado aqui) fiquei de queixo caído com a facilidade com que o autor consegue conduzir uma trama difícil, que mesmo arrastando um caminhão de aspectos psicológicos que poderiam dificultar o trabalho de muitos escritores; Grossman o faz com a facilidade com que toma um copo de cerveja gelada depois de uma boa pelada com os amigos.

Relembrando: Quentin Coldwater foi, após um "vestibular" meio surreal, parar numa faculdade de magia (e aí Lev Grossman sequer tenta esconder as similaridades e a acachapante influência de J. K Rowling, com seu ícone Harry Potter. Na verdade, brinca com isso o tempo todo, assim como brinca com Nárnia, Dungeons&Dragons, O Senhor dos Anéis, Peter Pan, O País das Maravilhas e "otras cositas más").

O livro de Grossman abre o diálogo com estas obras, de outros magníficos autores de fantasia e aventura por ser este exatamente seu intento ao escrever Os Magos, e agora O Rei Mago (Editora Amarilys, 432 páginas, R$ 49,00). Dentre suas linhas de ficção precisa e limpa, recheadas de ironias, sensualidade e veneno, o autor vai debulhando uma análise muito acurada do que é a fantasia na literatura e como as pessoas se comportam perante ela. Quentin lê os livros sobre Fillory (que não existe na literatura real) assim como lê Harry Potter e O Senhor dos Anéis, alçando-o a um mundo de fantasia como os demais. Temos então que Grossman não é um escritor de fantasia, por esta ótica, mas um escritor de realidades alternativas, não deixando portanto de ser um escritor de literatura fantástica. Grossman escreveu um livro sobre livros (daí ser uma metalinguagem).

Quentin entra em Fillory, não como um personagem de uma aventura onde Fillory é o cenário. Quentin é de Nova Iorque, do Brooklin, e entra lá como um ente alienígena do mundo real. É um representante nosso que adquire o poder de perambular no reino mágico e sua forma de agir, como um autêntico alien, é que o descola de Bilbo, Peter Pan ou Alice. Quentin está ali, não para desempenhar o arquétipo de herói à procura de aventuras ou de algo inatingível ou não, que as justifique; com o auxílio de um mentor e com uma espada mágica para ajudar. Isso é para os livros de fantasia e Quentin, na história de Grossman, não é um personagem de um livro; ele é real, vindo do mundo real e traz o distanciamento racional, a desconfiança e a estranheza de um urso pardo bailarino dentro de uma reunião de velhinhas bordadeiras cearenses. Ou seja: um peixe fora d'água.

Parece-me portanto, que a intenção de Grossman, em criar um personagem absolutamente deslocado de uma aventura de fantasia é refletir um aspecto bem evidente do nerd. Seja o aficionado por Star Treck,  o ávido leitor de gibis de super-heróis ou o fã de RPG. Grossman tenta contar um história de nerds!

Em O Rei Mago, após todas as reviravoltas que jogaram Quentin de novo em Fillory, o vemos como um dos reis do lugar. Com ele estão Janet, a patricinha ninfomaníaca; o amigo gay Eliot; a ex-garota-mais-gostosa-da-escola-que-não-dava-nada-por-Quentin, Julia, que se tornou uma maga das sombras e vários personagens tipicamente filloryanos, que parecem enxergar nestes visitantes, algo de intrusos mesmo, mas seu papel é o de desempenharem seus arquétipos (e não podem evitar).

Uma nova aventura se inicia. Quentin tem que achar as sete chaves (chaves parecem ser coisas bem adequadas a livros de fantasia, seguindo o raciocínio de Quentin). E uma busca, nos moldes tradicionais dos livros de fantasia vem bem a calhar. Talvez Quentin devesse se dar conta de que não faz parte deste mundo e se mandar antes de se meter em algo realmente ruim, mas talvez Quentin devesse olhar melhor para Julia, que parece estar se rendendo ao mundo mágico e se tornando um personagem de Fillory. Como diz o ditado, "se está no inferno, tire o capeta para dançar". Talvez seja a melhor estratégia para se manter vivo! O que acontece de fato, é que Quentin adorava fantasia enquanto ela era fantasia, estava nos livros e poderia ser guardada numa prateleira, mas quando isso passou a ser um mundo a ser vivido, empacou como uma mula.

A grande novidade de O Rei Mago, se comparado ao seu antecessor, Os Magos, é que este livro é um autêntico romance de fantasia, enquanto Os Magos era mais uma explanação livre e bem pensada de como seria a fantasia para jovens novaiorquinos típicos e mal alinhados à sua realidade anglo-saxã, fria, mecânica e competitiva, que de repente veem-se diante de uma porta para o absurdo. Fillory não é mais o reino de fantasia que aparece nos livros lidos por Quentin e Julia. Aqui, Fillory finalmente existe e é o mundo criado por Grossman assim como Nárnia é o mundo de C. S. Lewis ou o Sítio do Pica-Pau Amarelo é o mundo de Lobato.

O senão, é que Lev Grossman escreve bem demais, mas sua acidez, seu tom mordaz e coloquial o aproximam muito da crônica para fazê-lo ótimo como escritor de fantasia, estilo que requer um traço mais intimista, emotivo, lúgubre e arcaico. Seu traço preciso aplica-se mais ao crítico do que ao escritor e escrevendo, Grossman é muito mainstream para refletir o lirismo e o cerne fabuloso necessário ao fantasista, de tal forma que ele é... chato!

Não espere o envolvimento heróico de um Aragorn e um Frodo numa aventura realmente séria e aflitiva rumo a Mordor. Tudo para Grossman é um toque pálido de uma fantasia de livro já lido há muito tempo, quando se era criança e se gostava disso; sem emoção ou vida como é seu Quentin Coldwater, deslocado e perdido entre a realidade possível e a alcançada. Resta saber como um cara consegue ser tão bom sendo tão estraga-prazeres (talvez devamos ter em mente que o sobrenome de Quentin, "Água Fria" (a tradução de Coldwater), seja  completamente intencional).

Quentin e Julia vão para a Terra após terem entrado num portal, sem querer; Quentin reencontra Josh, conhece Poppy e entrevista um dragão (errr... um pouco rápido demais? No livro também é assim). Conseguem então voltar para Fillory, onde já se passou um ano. Encontram Eliot de novo, a bordo do Muntjac, o navio que Quentin fez para partir para uma aventura. Eliot está atrás das chaves mágicas que Quentin começou a procurar antes de ter ido para a Terra (e já recuperou várias). Quentin e Julia voltam no meio da aventura de Eliot para se juntar a ele e achar as que faltam. E tudo é tão... banal!

Vamos na lábia perfeitamente encadeada do autor transitando hora na mal fadada aventura de Quentin, hora nos flashbacks pessoais de Julia, e aí talvez tenhamos a parte mais interessante do livro. Lembra-se que em Os Magos, sempre que Quentin voltava de Brakebills, mais ou menos de ano em ano, encontrava Julia cada hora de um jeito, mas num estado cada vez pior? Alguma coisa nos era passada; deu para entender que Julia havia estado no mesmo "vestibular" que Quentin para ingressar na faculdade de magia, mas não passou. Deu para entender que ela não havia se conformado com isso e que a cada novo reencontro ela estava mais consumida na sua doentia compulsão por se tornar uma maga. Ela suplicou a Quentin que intercedesse por ela para que conseguisse ingressar em Brakebills, mas ele não se empenhou tanto assim, embora tenha realmente levado o pleito dela adiante. No final do livro, Julia reaparece, junto com Eliot e Janet para buscar Quentin, que havia se rendido ao isolamento, para levá-lo de volta a vida, de volta a Fillory, para aproveitar de vez o que aquilo significava, mas não sabemos como ela afinal foi parar ali (e até o final de O Rei Mago continuamos sem saber).

Nesse livro, vemos a história de Julia, desde o momento em que levou pau em Brakebills até o momento em que voltou a reencontrar Quentin, já como uma poderosa feiticeira das sombras. Somos então apresentados a uma série de personagens secundários que vão alimentando a neurose dela, vemos seus momentos de profunda angústia e depressão por sucumbir a uma realidade que ela se recusava a negligenciar e aos seus esforços titânicos para sobreviver e finalmente encontrar o caminho para a magia. Somos entremeados numa complexa rede de magia subterrânea, que vai alimentando Julia e seus progressos são desencavados na unha, às custas de sua dignidade, sanidade e saúde.  Tudo isso entremeado com as vezes em que se reencontrou com Quentin, como vimos no primeiro livro. Descobrimos então o que ela sentiu, o pano de fundo em que se inseria cada reaparecimento e o esgoto em que se diluía sua vida. Grossman é um gênio! É tudo tão perfeitamente encadeado, tão genuinamente plausível e tão maravilhosamente contado que embarcamos no claustrofóbico torpor que ele nos reserva e afundamos junto com Julia; permanecemos no fundo, chafurdando a esmo, inevitavelmente, interminavelmente, desesperados para emergir... e então retornamos. O caminho para voltar da zona negativa à tona é tão árduo que quando nos vemos de volta ao zero mal conseguimos entender que ela conseguiu. Foi tudo difícil demais, caro demais, mas Julia conseguiu!

Grossman não tem muita paciência para com seu próprio livro. Sua narrativa em linguagem um tanto chula e popular demais também parece atribuir um modo de falar comum para todo mundo (todo mundo fala com a mesma voz, tem os mesmo tiques verbais e usa as mesmas contrações). Talvez diferenciar as falas fosse uma boa para agregar maior individualidade aos personagens.

Conhece aquela frase de Arthur C. Clarke: "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia"? Pois é... A própria frase é citada no livro. O que é misterioso por natureza se abre diante de nós como um sapo eviscerado de laboratório. Assim, ele faz o mistério perder o que de mais insubstancial (e charmosos) possui: a fábula! A fantasia de O Rei Mago é fraca, por isso.

A tal procura pelas chaves mágicas é uma aventura fraca, como se poderia imaginar. Grossman, como sempre, parece estar tirando um sarro das aventuras de fantasia.  O final é surpreendente mais por não ser tão crível como imaginaríamos depois de tudo. A ida de Quentin ao submundo, o tal passaporte que lhe é pedido depois, diante do portal para o próximo mundo, o absurdo de não poder ir como queria, a maneira como Josh e Poppy encaram seu novo papel... é irritante e destoa do todo. Mas aqui, Grossman já se encheu do livro e quer terminar. Esqueça o final. Mesmo porque a nonsense intrínseca parece aproximar Lev Grossman de Jorge Luis Borges (uau)!


Série Magician
1. Os Magos
2. O Rei Mago


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