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A Resposta - Kathryn Stockett

>> terça-feira, 25 de outubro de 2011




O que eu quero saber é: o que nós vamos fazer a respeito?
Pág. 274


Li A Resposta em dois dias e sinto muito não ter lido assim que foi lançado. A leitura flui tão facilmente que quando percebi já tinha passado pela página 100, 200... E ao terminar o sentimento que ficou foi de paz. 

O Mississippi foi um dos últimos estados americanos a acabar com a segregação racial. A década de 60 foi cruel. Martin Luther King marchava pelo direito dos negros. Rosa Parks ficou conhecida como a Mãe dos Direitos Civis, ao se recusar a levantar de um banco, no ônibus, destinados aos brancos. Em 1962, duas pessoas morreram, durante um protesto, quando James Meredith tornou-se o primeiro negro a ser admitido na Universidade de Mississippi. James conseguiu ir para universidade graças à escolta federal, ordenada pelo próprio presidente Kennedy. Em 64, membros do Movimento dos Direitos Civis foram assassinados. Ser negro era a escória da humanidade. Foram tempos difíceis que Kathryn Stockett brilhantemente conseguiu nos repassar.

Skeeter é uma jovem branca, pertencente a uma tradicional família rica. Seu pai é dono de uma próspera fazenda de algodão.

Enquanto a maioria das mulheres só ia à faculdade até que casassem, Skeeter se formou com louvor e voltou para a cidade de Jackson. Ela não queria se casar, queria ser jornalista ou escritora, ou os dois. Ela queria ser uma mulher útil e não uma esposa, cujo único objetivo era mandar na empregada, verificar se os móveis estavam brilhando, se os filhos estavam com roupas limpas e se dedicar ao marido. Não, ela sentia algo que não sabia explicar. Inquietação, angústia. Algo a incomodava. Ela só precisava descobrir exatamente o que.

Com determinação, se candidata a uma vaga no jornal local. A única vaga é para continuar uma coluna sobre limpeza de casa. Ela, que nunca teve um único dia de trabalho doméstico na vida, iria aceitar o emprego e que Deus a ajudasse, ela iria dar tudo de si.

A ajuda veio por Aibileen, empregada de sua amiga. É quando uma honesta amizade começa. Uma amizade proibida. Pessoas de cor não podem ser amigas de damas brancas.

E é, também, através de Aibileen que Skeeter tem a grande ideia: escrever sobre como é ser empregada de cor de famílias brancas, sobre como é criar, com tanto amor, os bebês das patroas e quando esses bebês crescem se tornarem iguais às mães, com medo de pegar doença de negro se usar o mesmo vaso sanitário ou comer com o mesmo prato.

- Não criei você para usar o banheiro dos pretos! – Ouço ela sussurrando, pensando que não tou ouvindo, e penso: Minha senhora não foi a senhora quem criou a sua filha.
- Aqui é sujo, Mae Mobley. Você vai pegar doença! Não, não, não! – E ouço ela bater novamente na menina, e de novo, e de novo, nas perninhas dela.
Pág. 128

Aibileen e Skeeter travam um acordo de como será o livro. Elas só precisam do mais difícil: convencer outras empregadas a relatarem suas vidas. Tudo será feito de forma anônima, mas há um pequeno risco de quando o livro for publicado alguma patroa se identificar e demiti-las, ou pior, elas podem ser presas, espancadas ou mortas.

O risco é grande, mas todas estão cansadas de cozinharem, passarem, lavarem para as patroas brancas e não serem reconhecidas. Estão cansadas de terem que usar um banheiro externo, porque elas acham que os de cor têm doenças especiais. De não poderem entrar no mesmo estabelecimento, de andarem do outro lado da rua. Elas precisam e querem extravasar toda a raiva contida e contar ao mundo tudo que está engasgado. Contar a verdade, tal como ela é.

Eu não gosto de azaléias e, claro, não gostei de E o vento levou..., por causa do jeito que fizeram a escravidão parecer um grande e alegre chá das cinco. Se eu tivesse feito o papel da Mammy, eu teria mandado a Scarlett enfiar aquelas cortinas verdes no rabo branco dela. Fazer o seu próprio vestido de caçar homem.
Pág. 69

A Resposta, de Kathryn Stockett (Bertrand Brasil, 574 páginas, R$ 55,00), é uma incrível narrativa de como a segregação racial foi o pior tipo de abuso que um ser humano pode sentir. É como se tudo de ruim fossem destinados aos negros por nascerem com melanina em 'excesso'.

Voltei para casa aquela manhã, depois de ter sido despedida, e fiquei parada do lado de fora de casa, usando meus sapatos novos de trabalho. Os sapatos pelos quais minha mãe tinha pago o valor de um mês de conta de luz. Acho que foi aí que entendi o que era vergonha. E também a cor da vergonha. Vergonha não é escura, como pó, como eu sempre pensei que fosse. A vergonha é da cor do seu uniforme branco novo em folha que sua mãe pagou com o suor de noites a fio passando roupas para fora, branco sem nenhuma mancha de sujeira deixada pelo trabalho.
Pág 198

A autora - com sua escrita altiva sobre uma época de grandes mudanças sociais nos Estados Unidos - conta uma emocionante e magnífica história sobre pessoas que não aguentaram a opressão e sobre como pessoas de cores distintas se uniram para fazer a diferença.

As personagens são fortes, marcantes. Cada capítulo começa pelo olhar de uma das três protagonistas principais. Seus medos, anseios, a luta diária para não ser demitida e sustentar a família com o baixo salário e o marido bêbado (Minny). Trabalhar mesmo com idade de se aposentar para simplesmente não morrer de fome (Aibileen). A revolta de ser a única branca disposta a contar a realidade pela visão dos negros. A solitária jornada quando todos seus “amigos” lhe dão às costas (Skeeter). O glorioso começar de novo. E o mais importante, é a visão de cada uma dessas três mulheres que acreditam na verdade e ousam ter esperança.

O livro com a capa movie tie-in (acima) deverá ser lançado até o fim do ano. A capa é linda, mas a capa anterior (abaixo) é perfeita para a história!

“Toda manhã até eu estar morta e enterrada, você vai ter que tomar essa decisão.” Constantine estava tão próxima  que dava para ver suas gengivas escuras. “Você vai ter que se perguntar: vou acreditar no que esses tolos vão falar de mim hoje?”
Ela manteve o dedão pressionado contra minha mão. Fiz sinal com a cabeça de que havia entendido. Eu era inteligente o suficiente para entender que ela se referia às pessoas brancas. E, apesar de eu ainda me sentir mal e saber que, muito provavelmente, era feia, essa foi a primeira vez que ela falou comigo como se eu fosse algo além da filha branca de minha mãe. Toda minha vida me disseram no que acreditar, em termos de política, sobre os negros, já que nasci menina. Mas, com o dedão de Constantine pressionado contra a minha mão, compreendi que, na verdade, eu podia escolher no que acreditar.
Pág. 86

O livro termina com um comovente relato da própria autora sobre como foi sua infância no Mississippi e sua relação com a empregada de cor. Durante muitos anos, martelou em sua cabeça: tenho certeza que minha família jamais perguntou a Demetrie como era ser negra no Mississippi e trabalhar para nossa família branca. Nunca ocorreu nos perguntar. Durante muitos anos desejei ter tido consideração suficiente para ter perguntado. Ela morreu quando eu tinha 16 anos. Passei muito tempo imaginando como seria sua resposta. E essa é a razão porque escrevi esse livro.

Recomendo!

A Resposta é um sucesso editorial, ficando mais de 130 semanas na lista de Best Sellers - A ironia é que o manuscrito foi recusado por certa de 50 editoras, até ser lançado pela Penguin -. O sucesso foi tanto que virou filme. Aqui no Brasil, o filme será lançado em fevereiro de 2012 com o nome de Histórias Cruzadas.

Já assisti ao filme e ele não conseguiu captar toda a emoção do livro, infelizmente :( Mas, é um bom filme e a parte do "terrível segredo" ficou bem engraçada.





 
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