[Resenha] Kaori 2 "Coração de Vampira" - Giulia Moon



Já faz alguns anos que li Kaori – Perfume de Vampira (o primeiro da série), meu primeiro contato com um romance de Giulia Moon, de quem conhecia apenas textos curtos. Gostei bastante do livro, embora possa salientar que os momentos em que a vampira Kaori surge, no Japão feudal, foram os que mais me agradaram, já os passados em São Paulo foram um pouco menos imersivos. Agora, com Kaori 2 – Coração de Vampira (Giz Editorial, 2011), temos uma repetição das sensações que tive na época, com um decréscimo considerável dos momentos passados no Japão. Pena.

Giulia Moon tem uma habilidade incrível de invocar a fantasia da cultura milenar japonesa. Ela usa de seus mitos e lendas, constrói criaturas e engendra situações muito boas, com uma prosa fluída de beleza contagiante e intimista, difícil de encontrar na literatura de fantasia nacional. Contudo, ao transportar a vampira Kaori para o tempo atual e inseri-la num ambiente urbano e cosmopolita como São Paulo e Rio de Janeiro, perde-se essa magia. A própria escrita da autora parece perder em qualidade. Além disso há uma transposição muito forte do lúdico para uma sensualidade exacerbada que salta aos olhos. Nada natural, nada crível ou plausível. Fetiche puro. 

Kaori deixa de ser uma querida personagem de fantasia e, apesar de ser uma vampira, parece uma versão chula dela própria. Fala-se constantemente de sua perfeição física, não de uma forma mágica ou bela, mas sem comedimento, focada numa série de clichês eróticos, como seus seios empinados, suas coxas deliciosas, os mamilos duros e dos caras sarados e lindos que ela leva para a cama, acariciando suas “varas” (a escritora gosta do termo). Sei que há uma mulherada louca aí para pôr os olhos em cenas hot, e elas vão realmente gostar mais desses momentos, mas eu, particularmente, lamento pela perda da inocência das linhas bem traçadas de Giulia Moon. 

Penso que haveria como fazer a transposição da personagem de seus idílicos dias de gueixa, no Japão antigo, e seus confrontos com a bruxa/ vampira Missora, para a personagem atual, de forma mais suave e menos apelativa. Kaori não precisaria ser tão permissiva, não deveria ser tão reles, mas Giulia Moon planejou essa mudança de arquétipo e com isso perdeu muito do carisma da obra. Não sei se seria pelo fato de estarmos até as tampas de mulheres libidinosas cheirando a sexo, Brasil afora, em todas as mídias. Eu não sou conservador, longe disso, mas a literatura presente em Kaori 2 rescende demais a sexo, mais que simplesmente sensualidade. Uma tênue fronteira foi ultrapassada e a autora não faz a mínima questão de saber quando.

Além desse aspecto, temos a perda da qualidade da própria história, como já disse, e isso é o pior. Em Kaori – Perfume de Vampira vemos a trajetória da personagem, desde sua transformação de uma jovem humana em uma criatura noturna, e após isso sua inserção na realidade brasileira, sua perseguição por uma agência de observação de criaturas fantásticas (a IBEFF) e seu envolvimento com um desse agentes, Samuel Jousa (com J). Em Kaori 2 – Coração de Vampira o tom é mais debochado, menos substancioso... Eu diria: mais adolescente.

Criaturas parecidas com zumbis, os mastigadores, se levantam de suas tumbas e começam a caçar humanos Brasil afora. Além disso, criaturas que já havíamos conhecido no primeiro livro, os famélicos, assumem um comportamento um tanto diferente do que costumavam e passam a matar para se alimentar – Giulia Moon é muito boa com nomes.

Dizendo assim parece que temos um bom livro de mistérios, mas esse clima, definitivamente não está nas páginas de Kaori 2. A autora preferiu não incutir um tom sombrio ou a apreensão que um livro de terror deveria abraçar. Ao contrário, ficamos com os namoricos apimentados de Kaori e Yoshi (um personagem miscigenado, muito bem tramado, com influências do folclore brasileiro) e os agentes do IBEFF, todos com sua atuação morna e caricatural.

Seria necessário que as ações acontecidas no primeiro livro fossem relembradas com mais precisão, para sabermos quem são os personagens e o que o primeiro livro nos remete para este. Nada muito prolongado, já que são dois livros independentes. Eu, por exemplo, não me lembro do vampiro Felipe, um personagem muito popular nesse Kaori 2. Talvez por ser um personagem pouco marcante, como vários outros, mas isso poderia ser resolvido se sua participação na trama anterior fosse melhor explicitada agora.

E não é só Felipe. Os novos personagens são fracos. Yoshi, com sua origem e seus dias no Japão traz novamente um pouco da magia e da boa escrita da autora. Vemos quando o menino aprendeu quem era e sua infância com as criaturas fantásticas japonesas, mas isso dura muito pouco. Então ele sai de lá e, mais para frete, vira garoto de programa. Simples fetiche sexual e desperdício de potencial num personagem. Soraya é uma lupece e... veio e não se sabe para quê. Plana, sem aprofundamento de qualquer natureza, estando presente apenas para servir de escada numa trama fraca. Gaspar Klimann, idem, Não corresponde a nada que sua função de exterminador possa sugerir. Inserido na trama para dar um tom jocoso e bem humorado, arranca bocejos a cada página. Sidney e Samuel são trazidos do primeiro livro, assim como Kaori e Beatriz, e deles pouco se pode se esperar.

Kaori 2 esforça-se para agradar e em raros momentos realmente consegue, como nos belíssimos trechos abaixo: 

“...A figura esguia e graciosa da garota oriental era como um milagre em meio às mil máscaras humanas cansadas, manchadas pelo tom terroso, noturno. O anoitecer já se iniciara também para suas vidas, que se esgotavam num piscar de olhos, no curto intervalo entre um delírio e outro produzido pela droga.”

“...Eles se aproximavam das garotas com algumas pedras de crack à mão. Assim que a negociação era feita, bastava um canto mais escuro para uma foda rápida. Depois ele ia embora, saciado, pronto para voltar à sua atividade diária de mercador de almas, sugando a grana e a sanidade dos fregueses em troca de pedacinhos de loucura.” (favor ignorar o erro de número: ‘Eles se aproximavam...’, e ‘Depois ele ia embora...’. Erros de revisão desse tipo ocorrem poucas vezes no livro)

Pena que tais momentos de boa escrita sejam poucos; raros, na verdade. Da página 300 (mais ou menos), em diante, temos uma mudança drástica na história, com a inserção de armas e termos mais tecnológicos, que são muito bem-vindos, como saltos de helicóptero com wingsuits, drones, ornitópteros guiados e fuzis G36-C, mas é de se perguntar porquê isso não esteve presente também nos momentos em que se falava do IBEFF, uma organização misteriosa voltada a observar e catalogar criaturas fantásticas. Seria bom para dar alguma substância para a coisa, que sem isso não tem muito sentido ou função.

Esses episódios, francamente tecnológicos, seriam de se esperar de uma organização que se envolve com a observação, captura e, eventualmente, extermínio de entes sobrenaturais. Daria um ar de “organização secreta internacional cheia de grana, com um propósito oculto”, ao invés de “grupo de nerds birutas, com muito tempo livre”. Faltou muito mais disso. Altas ciências com gadgets impossíveis que pudessem auxiliar contra seres fantásticos, numa oposição ‘ciência x magia’, ou ‘tradição japonesa x modernidade ocidental’. Giulia Moon percebeu isso muito tarde.

De modo geral a história me decepcionou. A autora me levava a imergir em sua trama mas eu logo voltava à superfície e vagava sem adentrar de novo na história por muito tempo, então conseguia imergir, mas de novo era expulso por passagens ruins, e no final passei mais tempo sendo crítico com a obra do que me divertindo. Há ainda um terceiro volume dedicado a vampira Kaori, mas confesso que não tenho gás para encarar mais uma. Deu para mim.



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