Elantris - Brandon Sanderson





Brandon Sanderson é um dos mais jovens e badalados escritores de fantasia nos EUA atualmente; é o cara escolhido pela Chair Entertainment e pela Epic Games para escrever os livros da séria Infinity Blade, que bombam nos tablets mundo afora; e é quem sucedeu Robert Jordan, após sua morte, para dar sequência à série Wheel of Time (aguarde resenha em breve!). O currículo dele, portanto, indicava que a leitura seria ótima. Mas como ler currículo é uma coisa e ver o trabalho é outra, o resultado dessa resenha é um banho de água fria no entusiamo que tive ao iniciar a leitura. 

Por se tratar de uma fantasia medieval, temos uma mudança meio que violenta no paradigma. Cadê os monstros sendo derrotados por cavaleiros destemidos, com suas espadas mágicas cobertas de sangue? Cadê os feiticeiros brandindo seus cajados invocando as trevas sobre o mundo? Dragões? Elfos atirando flechas? Anões instilando sua perspicácia e taras sexuais a la Guerra dos Tronos? Nada disso, o que é alvissareiro, na verdade! Basicamente iniciamos o livro com dois plots: 


  • Raoden, o príncipe herdeiro de Arelon é acometido pela praga conhecida como Shaod, que reduziu os habitantes de Elantris a uma escória disforme e enegrecida de párias inumanos, isso porque outrora a cidade fora magnífica, cujo esplendor e magia fazia de seus belos moradores quase deuses. Raoden é então aprisionado e lançado dentro das muralhas amaldiçoadas de Elantris e dado como morto. Ninguém fica sabendo que ele foi lançado lá, o que é meio estranho. Ninguém abre o bico, nem os espiões da nobreza local descobrem nada sobre isso, os guardas da muralha não comentam nada, o sacerdote da religião Shu-Korath não fala nada, a mãe e o pai idem... Muito estranho. Lá dentro, ao invés de se render ao sofrimento e à sujeira, resolve reagir à miséria de seus poucos habitantes e mudar o rumo das coisas, considerando sua missão devolver a dignidade perdida à cidade e àquele povo; 

  • Sarene é princesa de Teod, cujo tirocínio e pendor político a levou a aceitar se casar com Raoden, num acerto político benéfico ao seu reino. Contrariando todas as fábulas de princesas já escritas, Sarene realmente deseja o casamento arranjado com Raoden (pode ser, por que não? Isso é inovador). Mas, após chegar a Arelon para as bodas, recebe a notícia de que Raoden “morreu”. Sarene não acredita muito nisso (Sanderson faz muito disso. Cria situações sem muita explicação. Por que Sarene simplesmente não acredita nas pessoas, sendo que até foi no velório do príncipe? Ela só vê o caixão fechado e começa a achar que ele não está morto... simples assim). Sarene começa então a tentar achar Raoden e acaba submergindo na política de Arelon, descobrindo que o rei é tão fraco e ruim de trabalho que está prestes a ser deposto. 

O que vemos é que os capítulos se sucedem, hora dedicados à Raoden, dentro de Elantris, hora retratando as maquinações de Sarene, em Kae, a nova capital, constituída depois da transformação que levou à queda da antiga capital, fenômeno que ficamos sabendo ter sido batizado de Reod. É bom ir se acostumando por que o autor inventa um monte de palavras e nomes para as coisas, mas isso não chega a atrapalhar a imersão na trama, já como conteúdo narrativo, é bem discutível.

O plot dedicado a Raoden é mais interessante. Retrata sua jornada aprendendo a viver num local conspurcado por um lodo escuro que tudo cobre. Aí ficamos sabendo como era Elantris, como eram seus moradores e a comparação que ele vai fazendo com o que vê lá dentro é um contraponto importante no desenvolvimento da história por parte de Sarene. Os achacados pela Shaod, que no tempo do esplendor era como as pessoas normais viravam elantrinos, agora perdem totalmente os cabelos, tem a pele coberta por manchas e perdem as feições humanas que tinham, além de “morrerem” mesmo, de certa forma, já que os corações param de bater e os corpos, ao se ferirem, perdem a habilidade de se curar.

Quando somos deixados na parte da história dedicada a Sarene, ficamos com ela e seu seon, um tipo de vida diferente, como um melão feito de luz e consciência, que flutua junto dela como um pajem e conselheiro (me lembrou um pouco os daemons de A Bússola de Ouro (Ed. Objetiva, 2007), de Philip Pullman, lembram?). Ela é paranoica e desconfia, hora que o príncipe não morreu, hora que Raoden possa ter sido assassinado, ou que sua morte não seja exatamente como lhe contaram, já que desconhece sobre o que lhe aconteceu de fato. Ela investiga perambulando por Kae, descobrindo sobre a maneira desastrosa de Iadon, o rei, governar; conhece as classes sociais locais, principalmente a nobreza e interage com eles. Descobrimos que, com a queda de Elantris e seus governantes, uma nobreza artificial foi moldada em Kae, dentre os comerciantes locais (eu sei, é muito tosco, mas vamos lá...), e um rei foi escolhido dentre eles, assim como barões, duques e condes, de acordo com sua riqueza. Somos levados às intrigas da corte, descobrimos quem é a favor e quem é contra a situação política vigente, e então Sarene conhece um inimigo.

É quando um novo plot se insere, interligando os dois primeiros: 

  • Hrathen, o gyorn (algo como um bispo) da fé Shu-Dereth chega a Arelon com o intuito de converter os habitantes. Tem três meses para isso ou Fjorden, o reino ao sul, onde essa religião impera, atacará e submeterá Arelon à força. Sua missão é ambígua: ao mesmo tempo que Hrathen tenta a conversão sem o derramamento de sangue, não tem qualquer escrúpulo em comprar, aliciar ou tirar do seu caminho qualquer pessoa contrária a sua missão. De imediato, Sarene, a princesa, se opõe ao gyorn por temer que submeterá Teod, sua terra natal, depois de Arelon. Hrathen encontra resistência num dos monges locais, Dilaf, um homem fanático que nutre verdadeiro ódio por Elantris. Pelo menos é nisso que somos levados a acreditar, inicialmente. 

O que fica claro, mais que tudo, é que o personagem principal, se já não soubéssemos, não é Sarene, Raoden ou qualquer outro, mas a cidade. Elantris (Editora Leya, 576 páginas, R$47,90), portanto, é um livro sobre Elantris.

Nas passagens de Raoden, ele tenta redescobrir o funcionamento dos aons, caracteres mágicos que funcionavam em Elantris e que subitamente pararam de funcionar depois do Reod. Não entendi se os novos elantrinos, os atacados pelo Shaod depois do Reod, são ou não imortais. Numa hora é dito que sim, noutra é dito que não. Como é que o autor pode fazer confusão numa coisa tão básica para a história? A culpa pode ser minha já que comecei a ficar meio irritado com o livro.

Com relação a Sarene, como uma mocinha, por melhor que seja sua educação e experiência, vem de um reino estrangeiro para Arelon e num estalar de dedos consegue convencer os maiores e mais influentes nobres locais a segui-la como cachorrinhos, liderando-os em toda espécie de estripulia e planos mirabolantes? Enquanto isso, todas a mulheres do livro, fora a própria Sarene, são desmioladas e bobalhonas. Nunca vi uma princesa mais diferente do arquétipo de princesa (não é um elogio). Aliás toda a nobreza de Arelon é uma piada. A caracterização do rei Iadon quase beira ao ridículo. Não consegui ver nada de real nele (qualquer que seja o sentido de “real”, aqui). É de se destacar aquilo de Shuden ficar fugindo das mulheres que correm atrás dele. Que palhaçada! A cena dos sacrifícios, que finalmente ferra com o rei Iadon, dentro dos esgotos, então, de onde Sanderson tirou aquilo? Nada a ver com a história até ali! Ridículo.

Tivemos um final até que regular. Muitas reviravoltas e bastante ação. Sanderson sabe como mudar o enfoque de sua narrativa para mostrar diversos aspectos da história. Há muitos pontos interessantes, mas não sabe dosar as coisas. O autor despreza a lógica; abusa das saídas mágicas, o tempo todo, onde o leitor tem que aceitar soluções tiradas da cartola ao invés de sequências bem pensadas de fatos coerentes e convenientemente encadeados de tal forma a gerar convencimento. Causa e efeito, na obra de Brandon Sanderson, é uma sucessão quase irracional de decisões aleatórias, que arranham apenas de leve a credibilidade.

Ninguém notou quando Iadon morreu e Sarene iria se casar com o Duke Roial e houve toda aquela confusão, com Telrii acabando por ser a pessoa a subir ao trono, devido ao fato de Iadon não possuir descendentes? Sendo esposa de Iadon, por que Eshen não se tornou a sucessora de Iadon? Ela ainda era a rainha, não era? Ah, sim, ela estava muito chocada devido ao fato do marido ter se envolvido com os Mistérios Jeskery. Mas e daí?

Tivemos uma luta, a la Dragon Ball Z, que fecha o confronto entre Raoden e Dilaf quando o rei de Arelon, após restaurar a magnificência de Elantris, desenhando com um galhinho um risco no chão, transporta-se magicamente de Arelon para Teod, seguindo uma dica de distância, em passos, dada por Adien, irmão de Lukel, sendo que o moleque esteve lá uma única vez, aos cinco anos. É claro que temos uma explicação “aceitabilíssima” porque, devido ao fato do menino ser autista e viver encontrando e contando números em tudo que vê, isso permite que ele saiba quantos passos há entre Arelon e um lugar do outro lado do mar (sim, estou sendo irônico com o “aceitabilíssima”, mas esse é o raciocínio que Sanderson propõe, gente!). Se isso já não fosse uma bobagem extrema, voltando ao risco feito no chão: então era só haver um vento mais forte, ou um boi caminhando, uma chuva, ou algum desavisado passar andando e pisar na linha desenhada por Raoden e apagar um pedacinho dela para o AonDor parar de funcionar de novo? Tenha dó.

Tem muito mais, mas realmente não parei para ficar anotando tudo de mau que via no livro. Minha intenção era achar as partes boas, mas isso cansou. São tantas perguntas e assuntos que foram levantadas durante o livro e respostas de menos ou que não convenceram, ou ainda questões que simplesmente foram deixadas no ar, que fiquei realmente muito decepcionado. Para mim foi uma verdadeira aula de como um autor pode perder a crença do seu leitor.









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