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[Coluna] Divagações #02: Denuncie.

>> terça-feira, 31 de maio de 2016

Antes de apresentar o texto de hoje, eu preciso dizer que ele é de ficção com um enorme porém de que, infelizmente, é baseado em fatos muito reais. Ele foi escrito final do ano passado após o lançamento de Til It Happens To You, música da Lady Gaga que fala sobre o estupro. Aliás, aconselho ler ouvindo. 

Nunca passou pela minha cabeça que algum dia eu publicaria esse texto... Até os acontecimentos sobre o estupro coletivo no Rio de Janeiro da semana passada. Porque precisamos falar sobre o estupro e precisamos fazer com que a sociedade entenda que assim como o título da história de hoje: Eu sou Maria e a culpa não é minha. A culpa é única e exclusivamente do estuprador. 

"... Oi, eu sou a Maria. Maria como outras milhares por aí, também conhecidas como Anas, Carolinas e Isabelas... Que passam pelo mesmo que eu passei, mas que não tem a mesma coragem eu tive, talvez por medo. Eu sei, é complicado lidar. Você acredita que dizem por aí que a culpa é minha? Eles não falam abertamente para mim isso, mas os olhares não negam. Por dentro estão gritando: “A CULPA É SUA! SE NÃO FIZESSE TAL COISA, SE NÃO SAÍSSE SOZINHA, SE NÃO SE VESTISSE DE DETERMINADA FORMA, NADA DISSO TERIA ACONTECIDO...” Eu sei que a culpa não é minha. O fato de eu fazer minhas coisas, de sair sozinha e nem as roupas que eu visto justificam os atos do meu agressor.

Sabe o que é engraçado? Ele disse exatamente a mesma coisa pra mim: “Sabe por que estou fazendo isso com você? Porque você está usando esse vestidinho grudado, esse batom vermelho. E é bonita. Mas se fosse feia não ia ter problema não, te olhando assim... É, seu corpo vale muito a pena... E você sabe que vale... Eu sei que você usa essas coisas pra me provocar...” Depois de ouvir essas palavras miseráveis, implorando por socorro, eu fiz parte das estatísticas. E meu agressor? Bem, ele é meu vizinho. Assim, como milhares de jovens nesse país, o inimigo literalmente morava ao lado.

Ao contrário do que ele esperava que eu fizesse, eu não me calei. Estava quebrada em todos os aspectos, meu psicológico nunca mais será o mesmo, nem meu corpo. É difícil, denunciar uma pessoa que você conhece bem. Mas eu fiz! Eu fiz, porque no momento que meu corpo é minha propriedade e segundo a lei invasão de propriedade é crime. Logo, o que ele fez também é! Vivemos em uma sociedade onde há cultura do estupro, onde as suas ações justificam as ocorrências. A vítima é sempre a culpada por provocá-los. Nunca tinha entendido muito bem antes e agora que passei por isso, passo a entender menos ainda. Tem coisas que realmente não tem explicação.

Depois do ocorrido, recebi o apoio de muitas pessoas. Algumas conhecidas, outras que nunca me viram, mas que se sentiram sensibilizadas. Vocês estão se perguntando onde estavam e o que fizeram a família dele não é? Então, a mãe dele tentou de todas as formas “amenizar” as ações do filho dizendo que ele fez o que fez porque estava apaixonado... A tática não funcionou. Então ela disse que tinha como comprovar que ele é doente e se ele fez isso comigo pode ter feito com outras pessoas. Normal. Normal? Normal pra quem? Se na casa dela esse tipo de violência é normal, na minha e na ‘das outras pessoas’ não é. Mantive a denúncia. Eles se mudaram, mas acabei sabendo que como ele era réu primário foi concedido o habeas corpus. E que de fato tem problemas mentais... Não me importo. Eu só queria que esse psicopata pagasse pelos seus crimes. Não é pedir muito, aliás, não é pedir nada. É um direito meu. Até porque quem vai levar esse peso no baú do passado, por mais tratamentos que venha a fazer, sou eu! ..."

Espero que tenham gostado e assim como a Maria, denuncie! Não importa quem seja, denuncie. A cada 11 minutos mulheres são estupradas aqui no Brasil e infelizmente nem sempre seus agressores são denunciados e fica por isso mesmo. É comprovado também que na maioria dos casos de estupro, o estuprador é um namorado, um amigo, um parente. O que as pessoas precisam ter consciência é que independente do que a mulher seja, do que ela faz, o que ela veste, não há justificativa para ser estuprada e principalmente que não deve ter medo de ficar calada e nem se sentir envergonha pelo o que aconteceu. Afinal, ela não cometeu crime nenhum. Vou deixar abaixo uma lista de sugestões de livros sobre o assunto, o estupro veio à tona, mas nem todos sabem do que se trata e nem como lidar com quem foi vítima.

3096 dias- Natascha Kumpusch
Libertada- Michelle Knight
Teresa, que esperava as uvas e outros contos- Monique Revillion
Sorte- Alice Saad
Missoula: estupro e justiça numa cidade universitária- Jon Krakauer
Não conte para a mamãe- Toni Maguire
Belle- Lesley Pearse.
 
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