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[Resenha] Brasyl - Ian McDonald

>> quarta-feira, 23 de setembro de 2015


Vamos supor que eu, Albarus Andreos, resolvesse escrever um livro sobre, bem... a Irlanda do Norte. Um livro passado entre irlandeses, clima frio, leprechauns, mitologia celta, praias ruins, arranca-rabos religiosos e, claro, U2. Muito bem, teria que pesquisar muito para fazê-lo, saber como é o povo irlandês além do simples clichê de caras gordinhos, de suíças enormes, fumando cachimbos, com um trevo de quatro folhas na lapela. Agora suponha que eu faça isso tão bem que um irlandês nato fique de boca aberta com minha perspicácia, meu conhecimento de mundo e minha habilidade em fazer um texto sobre a Irlanda como nem mesmo a grande maioria dos gordinhos de suíças e cachimbo é capaz. Nesse caso, eu seria uma versão alternativa de Ian McDonald. Uma das infinitas possibilidades presentes nos multiversos paralelos e ganharia prêmios como o Philip K. Dick, o Locus e o British Science Fiction Award, além de diversas indicações ao Arthur C. Clarke e Hugo.

Brasyl (Editora SDE Brasil, 2015) é um livro de ficção científica, absurdamente bom, absurdamente bem escrito e absurdamente complexo. Não espere lê-lo à noite, meio desatento, antes de dormir. Precisa de atenção, de intuição e mente muito afiada. Receio dizer até mesmo que não é para qualquer um. Longe de um entretenimento descompromissado para esperar o sono chegar, Brasyl fala sobre a gente brasileira, sua terra, seu sofrimento, sua história, sobre política, sobre sobrevivência, amor e... ciência quântica. Tudo isso em três épocas distintas, no passado, presente (imagine que ainda estamos em 2006) e futuro.

Além da ótima história, que escorre como melado das páginas de Brasyl, ressalto a maneira como o autor tece a trama toda, com altas quebras de continuidade, indo e vindo no tempo entre três personagens principais: Marcelina, uma produtora de TV medíocre, no nosso presente, Edson, um malandro, micro empresário de celebridades, num futuro próximo, e o padre jesuíta Luis Quinn, um missionário do século XVIII, imbuído de uma missão de quilate tolkeniano. Se já não bastasse a divisão do texto em capítulos entre essas três realidades, o autor nos brinda com uma dose extra de confusão, onde fatos acontecem não exatamente na ordem cronológica. Às vezes nos vemos numa discussão, onde os personagens falam sobre alguma coisa que só depois vamos saber que aconteceu. Para que facilitar se o clima é o de realidades que se misturam no tempo e no espaço?

Veja bem, imagine que há um Brasil aqui e agora, com sua população, o trânsito, quibes no botequim da esquina, capoeira, o Lula metido em denúncias de corrupção (sim, o livro foi escrito em 2006!), e você, sentado numa cadeira, usando uma camiseta amarela, tomando sopa. As realidades paralelas vêm do fato de que há um mundo onde outro Brasil tem sua mesma população, o mesmo trânsito, quibes no botequim da esquina, capoeira, o Lula metido em denúncias de corrupção, e você sentado numa cadeira usando uma camiseta amarela comendo... ostras, e há mais outro Brasil, sua gente, trânsito, quibes no botequim, capoeira, o Lula metido em corrupção, e você está de pé numa cadeira, usando uma camiseta amarela ajustando uma corda ao redor do pescoço presa ao caibro do teto, por alguma razão que não vem ao caso.

Há infinitos outros Brasis, com suas gentes, com ou sem trânsito, com quibes, empadinhas ou ovos cozidos no botequim da esquina, no restaurante ou na cantina de um hospital; capoeira, aikidô; funk, salsa, reggae; você sentado no lombo de um dinossauro, numa cadeira de rodas, num fórmula 1; usando uma camiseta amarela, pelado ou roupa de astronauta etc. Em alguns universos, Frank Sinatra nunca veio ao Brasil, noutros, o Brasil sequer existe, noutros a vida sequer vingou, bilhões de anos atrás, noutros, por uma questão de um milésimo de segundo em que você pisca, uma mosca deixou de entrar no seu olho e o resto é tudo absolutamente idêntico.

A teoria apresentada no livro foge ao meu interesse, na verdade, mas a história em si é arrebatadora. Aconselho simplesmente deixar-se levar. Se não entendeu faça um favor a si mesmo e deixe-se tomar pela mão do autor. O objetivo não transformá-lo num Einstein. A técnica narrativa é a verdadeira estrela do texto, a habilidade em lidar com frases e parágrafos para criar o clima de deslumbramento literário que me arrebatou. Não sou daqueles que buscam furos nas teorias, embora seja exigente com o que leio (quem lê regularmente minhas resenhas, sabe o quanto). Não tenho sequer gabarito para entender a fundo sobre o assunto, pois aí a sugestão mágica feita pelo autor perde o sentido. Se eu não der a ele a licença para criar sua fantasia, a coisa não anda, eu não me divirto e a leitura passa a ser simplesmente um catar de pelo em ovo para ver onde o cara errou.

O trabalho gráfico da editora SDE Brasil é surpreendente. Em cada um dos capítulos as fontes dos caracteres mudam e a preparação gráfica, principalmente quando estamos nas páginas dedicadas a Luis Quinn, simula até a impressão arcaica de um livro antigo, como páginas impressas em antigas prensas mecânicas, com as manchas de tinta nas bordas das páginas e desbotados pela água e pelo tempo.

O entrelaçar das histórias dos três personagens é o motor da narrativa. É quando se integram as realidades diferentes e passamos a ver um contexto comum: o aqui e agora de Marcelina, uma carioca da gema, que de uma hora para outra deixa suas ideias mirabolantes de ser um mega-produtora de TV – e isso implica em passar por cima de quem vir pela frente, e começa a ter a impressão que há mais alguém nesse mundo “sendo ela” (oi?); Edson, num futuro próximo, um cara pobre de São Paulo, louco por tecnologia, metido em mil tretas, fica dividido entre seu relacionamento homoafetivo com um professor de física e uma estranha garota de traços orientais, que cruza seu caminho, com um conhecimento de computação quântica que pira o seu cabeção; o padre Luis Quinn, um missionário jesuíta e exímio espadachim que vem ao Brasil colonial com a missão peculiar de procurar e levar a julgamento um outro padre, metido nos confins do Amazonas, que se apartou da Igreja e está levando a destruição aos povos indígenas, com estranhas e inquietantes ideias.

Acontecimentos que ocorrem em um plot são explicados em outro, impressões de um personagem são compartilhadas por todos, não importa os anos e os milhares de quilômetros entre eles; o que um faz num momento repercute além. Essa comunicação nos dá a impressão de que mesmo o tempo realmente não existe, que tudo acontece concomitantemente, em realidades paralelas, uma interagindo com a outra com tentáculos de cor, som e luz que se estendem de um momento narrativo para outro, como a mistura dos rios, Negro e Solimões, que caminham juntos, imiscíveis, por quilômetros, até originar o Amazonas, mais adiante. Um mesmo rio, com origens difusas, mas um destino.

A inserção de umbanda, santo daime, futebol, gírias e o “clima brasileiro”, otimamente entendido pelo autor, absorvido por ele e despejado com verossimilhança nas páginas do livro, é surpreendente. Como é que esse gringo nunca morou aqui, gente? E morar, só, não resolveria. Ele teria que conhecer a fundo nossos costumes, gostos e ideias. Teria que ser um sociólogo e brasilianista nato. E ele nos conhece, intimamente! É uma obra para poucos escritores no mundo, incluindo aí os nossos.

No livro, após deslindar as explicações científicas padrão dos livros de FC, tudo vai bem até que alguns começam a atravessar as realidades, indo e vindo de uma para outra. Como ver essas realidades paralelas? O segredo parece advir dos antigos povos indígenas amazônicos com suas teriagas alucinógenas. Mas há os que querem evitar essa transmigração dimensional. Há razões para isso. A Ordem, uma organização aparentemente dedicada a cuidar do assunto, envia seus admonitores atrás dos transgressores e a morte é o método mais eficaz de se evitar encontros de uma Marcelina com ela mesma, por exemplo. Em meio a esse emaranhado de realidades, uma arma inusitada aparece, uma faca cujo corte pode atravessar tudo. Uma lâmina quântica que se cair no chão pode atravessá-lo e continuar sua queda através de rocha e magma em direção ao centro da terra.

Nesse livro, em que o que parece pode ser apenas uma nuance de uma realidade espelhada em outra, temos situações que se repetem, como um déjà vu entre épocas. Os drones de vigilância nos céus da São Paulo do futuro, são reflexos dos anjos vistos pelos céus de São José Tarumãs, no Amazonas colonial, em que os índios são catequizados ou exterminados pela loucura de um homem submetido ao seu fanatismo. No Rio, o goleiro que furou um gol na copa de 1950 é muito mais que um ex-atleta, mesmo porque, em outras realidades, aquela bola nunca foi parar nas redes pelos pés do uruguaio Ghiggia.

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