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[Resenha] Se Eu Fechar os Olhos Agora - Edney Silvestre

>> quarta-feira, 24 de junho de 2015



Esse é um daqueles livros que comprei e que aguardou pacientemente na minha estante o momento certo de ser lido. Uma escolha para quando estivesse um tanto enjoado de tanta literatura fantástica. Algo para “desintoxicar” da magia e dos dragões. Uma edição simples, com capa comportada como deve ser com os livros do mainstream. Um nome de prestígio, já que Edney Silvestre, estreando na literatura, é repórter e apresentador da RGT. Além disso, o livro tem oportunos comentários estampados na contracapa, de gente como Luiz Ruffato e Lya Luft, recomendando-o. Tendo-se em mente que Se Eu Fechar os Olhos Agora (Editora Record, 2009) foi o ganhador do Jabuti e do São Paulo de Literatura na categoria Autor Estreante, ambos em 2010, a expectativa era imensa. Uma boa escolha, não é? Não. Estou muito decepcionado com o livro.

Para um autor estreante a narrativa de Silvestre é bem calhada. Tem até boa desenvoltura em certos momentos. Mas não deixa de ser o texto típico do autor inexperiente. Diálogos confusos (e não ligeiros, como diz um dos seus chapas de contracapa), decisões desajeitadas, personagens com atuações mornas e muitas vezes inverossímeis, uma história um pouco só interessante e excessivas intervenções contextuais, onde Silvestre se esforça demais para datar o livro no ano de 1961, através de intertextualidades, de objetos, usos e costumes do dia a dia da época. Isso é conveniente, mas o autor pesou demais a mão. O excesso de referências e sua profundidade torna a narrativa enciclopédica. Perde-se objetividade. A linha narrativa tem de ser deixada de lado para que se insira frases do tipo “...você sabia que, em 1937, fulano fez tal coisa...?”. Elas acompanham o leitor pelo livro todo.

Paulo e Eduardo são dois meninos de 12 anos que dão o azar de tropeçar (literalmente) em um cadáver, numa tarde de ócio em que preferiram matar aula a enfrentar o diretor da escola, devido a uma travessura. Foram até uma represa, numa cidadezinha do interior fluminense, e acabaram encontrando o corpo de uma linda mulher loura, esposa do dentista da cidade. Os dois meninos denunciam o achado à polícia e, insatisfeitos com a confissão do marido da defunta, acabam decidindo investigar os fatos por si próprios.

O autor começa querendo caracterizar os garotos, arredondando-os psicológica e socialmente mas, sinceramente, não consegui ver dois meninos distintos, por mais que um seja negro, de criação precária e descuidada, e o outro um rapazinho branco, com todas as características de um bom filho estudioso de classe média. Faltou habilidade para incutir essas características nos personagens. Então, ao melhor estilo “contar é mais fácil que mostrar”, Silvestre não consegue fazer Eduardo parecer diferente de Paulo, e os próprios diálogos, rápidos e sem mostrar quem é que fala o quê, criam um confusão enorme. Aliás, não vi sequer dois meninos ali. Crianças de 12 anos são arteiras, um tanto dissimuladas, brincalhonas, irresponsáveis, sei lá... Isso não aparece no texto. Paulo e Eduardo são idealizados, mal planejados como arquétipos. Não são pessoas.

E causa impressão por quê dois moleques iriam se meter a investigar um crime, assim, de uma hora para outra, após achar um corpo cruelmente mutilado. Você faria isso? Pense só, você, pré-adolescente, achando um cadáver faltando pedaços, no meio do mato... Por acaso seria crível que dissesse, “olha, vamos investigar esse assassinato!”? Não há fantasia que resista à realidade. Faltou ao autor criar o clima em que essa decisão poderia ser uma aventura para os dois meninos, hiperativos, sem nada para fazer, ou inteligentes, nerds à procura de ação, sem se preocupar com mais nada, pura inconsequência, um ato que lhes mete os pés pelas mãos... 

Na boa, se eu encontrasse um cadáver no mato eu ficaria uma semana sem sair de casa, tendo pesadelos todas as noites, achando que o assassino viria atrás de mim também, sei lá... Só eu sou cagão? Por isso, na minha opinião, o escritor falha na etapa de dar motivos plausíveis para que um fato tão sem noção pudesse se tornar o motor da narrativa. Que a assassinada fosse uma parente amada platonicamente por um dos meninos, ou a ex-namorada de um artista de rádio popular, ou alguém que um dia tivesse salvado o cachorrinho de um deles de ser atropelado... Melhor ainda se fosse tudo isso junto. Faltou uma boa razão para garotos bobocas se tornassem heróis de um livro. Lição de casa, Edney Silvestre: leia mais Stephen King (O Corpo – Coletânea Quatro Estações, de onde se originou o filme Conta Comigo, dirigido por Rob Reiner, 1986).

Como pequenos ladrões, Eduardo e Paulo, invadem a casa do dentista para procurar provas (oi?). Lá encontram um velho de cabelos brancos que também não tem nada melhor para fazer... (OI?). Essa cruzada de caminhos com o velho invoca a clássica Jornada do Herói, de Joseph Campbell. Edney Silvestre tinha que inserir um “mentor” para os dois, que pudesse servir de escada, para dar explicações, ajudar nas deduções e criar missões, afim de termos conteúdo. Nada melhor que um misantropo, morador de um asilo de velhos, para poder misturar drama à inconsequência infanto-juvenil.

Só que de cara os dois meninos, após invadirem a casa do dentista durante a noite, vão roubar um hábito de padre para o velhote se disfarçar e visitar um orfanato (mal se conhecem!), onde a defunta teria passado sua infância, e depois invadem sorrateiramente a prefeitura, pelo telhado, à procura de documentos... Juro que achei que estava lendo uma obra do mainstream, mas do jeito que se mostra parece que é uma história de ninjas. O autor força demais a barra!

Em certo momentos Silvestre se acha “o Saramago” e mete os diálogos no meio da narrativa, sem travessão, misturados ao texto do narrador. Noutros, usa os travessões normalmente, e ficamos sem entender o que levou à mudança. Pura falta de coesão textual. Em alguns trechos ainda, usa pontos finais como milho jogado num galinheiro, ao léu. O que é que Silvestre tem contra a boa pontuação?

No meio do livro o autor decide revelar o nome do velho do asilo, que passa a ajudar ativamente os dois meninos na investigação do crime. Seu nome é Ubiratan. Ficamos sabendo que foi um cozinheiro em uma escola de Pernambuco, é comunista, sua esposa foi estuprada e morta pela ditadura de Getúlio Vargas. E o nome de Getúlio é citado em várias oportunidades, talvez uma fixação do autor com o tema, já que não há razão para invocá-lo tantas vezes na trama, sendo que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Se queria escrever sobre Getúlio, deveria ter feito isso e pronto. A história em si prescinde de tantas referências a esse respeito.

É de se notar a erudição de um simples cozinheiro. O arquétipo pode e deve ser expandido mas... Se o cara é um cozinheiro, tem-se em mente um “tipo” e suas características quotidianas vem imediatamente. Então, se ele é culto, conhece história, gosta de ópera, ciência de foguetes ou engenharia genética, o autor deve reservar um tempo para explicar como ele possui esse conhecimento em especial. Silvestre não o faz, como se fosse a coisa mais comum do mundo um cozinheiro ouvir uma ópera e já identificar se é Verdi ou Puccini. Ficaria mais crível se fosse um professor, ao invés de um operário. Um mínimo de pré-conceito facilita a vida do leitor. E, não! Ópera não é e nunca foi, em 1961 ou agora, uma coisa popular, que qualquer operário de ofícios conhece.

O clima de complô generalizado com o prefeito, o diretor da escola, o bispo e outros poderosos, todos mancomunados, é excitante mas parece um tanto irreal também. Tem-se que criar uma pano de fundo convincente. O dentista assume o crime como se não fosse ele, mas não tivesse alternativa, e não é um crimezinho qualquer, é assassinato! Trinta aninhos de cana. Todo mundo que tem algum poder parece saber a “verdade” que só o leitor ainda não sabe. Todos estão imbuídos, de alguma forma, em botar a panos quentes o assassinato da esposa do dentista. Como se fosse um clube secreto de nazistas, uma seita satânica ou algo do tipo. Por quê? Que encobrissem uns aos outros até aceito, já que eram deturpados sexualmente, mas o texto extrapola. Por que permitiriam ser fotografados se se importassem em ser reconhecidos? Que babaquice sem sentido! Mais sem sentido ainda o final, quando ficamos sabendo quem foi o assassino.

O processo de identificar a vítima, sua história pregressa, até que é bom, existe uma boa escrita que surge aqui e ali, bons parágrafos mais para o final, depois das resoluções do plot. Mas até aí, conclusões são tiradas de fatos inconclusivos como que por mágica, e Eduardo ficar corrigindo o português de Paulo como se fosse um professor e o outro “Oh! Obrigado amigo!”? Nada a ver! Que crianças são assim? E faltou tensão ao texto, faltou o clima de thriller americano, pontas soltas aqui que fossem bem amarradas lá na frente (e foram muito mal amarradas, por sinal), algo de Truman Capote. O péssimo final, quando todos os fatos são explicitados, lembra uma história em quadrinhos de super-heróis, em que o vilão, tendo o herói sob seu raio laser mortal, fica vinte minutos explicando todas as suas maldades e porquês em vez de acabar logo com o supertrouxa.

Se Eu Fechar os Olhos Agora é um livro policial sem se render ao gênero, envergonhado de pertencer a ele (preconceito?), mas sem conseguir se livrar do enquadramento. Nem aqui nem lá, retido no limbo dentre realidades.

Deu. Preciso urgentemente de um livro de fantasia (para desintoxicar). A maioria deles traz enredos melhor planejados e mais críveis. E viva o Jabuti e o Prêmio São Paulo de Literatura! Faça-me o favor...



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