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A Espada do Destino - Andrzej Sapkowski

>> sexta-feira, 6 de março de 2015



Livro que aguardou pacientemente na minha estante para vir ao lume. Sim, como tantos outros leitores vorazes por aí, sou acumulador de livros. Leio muito, mas compro/ganho mais ainda, e por isso, A Espada do Destino (Editora WMF Martins Fontes, 2012), do polonês de nome impronunciável, Andrzej Sapkowski, esperou até agora. Confesso certa cisma com o primeiro livro do autor, publicado aqui no Brasil pela mesma editora. Não que fosse ruim, mas O Último Desejo, de 2011, foi um livro lançado sem a devida informação de que se tratava de uma coletânea de contos e, pelo encadeamento, poderia até ser entendido como um romance, coisa que realmente não era, o que provocou muita confusão e tornou meu processo de leitura pouco confortável. Mas é de A Espada do Destino que vamos falar e, ciente de antemão de que se trata de nova coletânea, o livro é muito bom!

Geralt de Rívia é um caçador de monstros. Um witcher que, em português ficou bruxo mesmo, por falta de uma definição mais próxima. Todavia, bruxo não é realmente um termo que diga muito sobre o personagem, já que nosso conhecimento do clichê nos remete a uma figura vestida em trajes longos, com um chapeu pontudo, uma vassoura voadora e talvez uma varinha mágica na mão. Nada disso. Geralt está muito mais para um guerreiro mercenário que ganha a vida com a força de seu punho numa espada. Mas ele tem poderes. Consegue invocar sinais místicos que lançam feitiços nos oponentes, tem sentidos aprimorados e grande habilidade na luta armada. Ele é um mutante!

Oi? Ele é um X-Men? Calma... É sério que ele é um mutante. É assim que o chamam em muitas páginas, e a ideia de mutante aqui beira ao que vemos nos gibis dos X-Men, sim. Refere-se ao ser que não pertence realmente a sua espécie, tendo uma mutação que o difere do coletivo. No livro, Geralt foi escolhido dentre algumas crianças e submetido a extratos e ervas mágicas cujos perigosos componentes alquímicos foram mudando seu corpo e lhe despertando habilidades dormentes, tudo muito doloroso e com um final nem sempre excelente. Ele não pode se reproduzir, por exemplo, como a ciência real nos diz sobre mutação, e não sabemos muito mais sobre como ele conseguiu seus dons. Aliás, todo o livro é um apanhado de pistas que no final nos proporcionará uma visão mais completa de Geralt de Rívia, embora isso nunca seja dito tudo de uma vez, ou com objetividade.

Portanto, como estamos numa fantasia medieval, bruxo talvez seja uma maneira mais razoável das pessoas se referirem a seres como ele, mas há feiticeiros também,como o bom arquétipo padrão dos fazedores de feitiços já bem conhecido por nós. Portanto, feiticeiro é uma coisa e bruxo é outra, entendido? E há elfos, anões, gnomos e ananicos (pequeninos, de pés peludos. Seriam hobbits?), e uma variedade imensurável de monstros retirados da mitologia eslava, de nomes abstrusos como estriges, dopplers e gnolls, incluindo ainda os mais conhecidos, como lobisomens, dragões e goblins (cá para mim, acho que muitos são invenções da própria cabeça do autor, mas, vamos ao livro).

Andrzej Sapkowski é um exímio escritor e domina com desenvoltura toda a técnica da boa narrativa. Por isso nos deixamos conduzir por sua agilidade em ótimos textos, com personagens muito bem construídos, situações cômicas e de ação, e frases habilidosamente encaixadas. Aliás, o bruxo Geralt de Rívia difere muito do personagem que conhecia já do videogame, inspirado pelo autor polonês. Enquanto o The Witcher (1, 2, 3...) é um jogo de ação, muito mais sombrio, com um Geralt de Rívia circunspecto e implacável, o personagem do livro é um cara mais pacato, ‘na dele’, que mal toca na espada a não ser quando tem um monstro pela frente. No fundo, prefiro o Geralt do game, já que o tom do texto é, na maioria das vezes, muito mais jocoso.

O primeiro conto, O limite do impossível, nos coloca junto com o caçador de monstros numa missão de busca a um dragão. É de se notar a presença de Yennefer, uma personagem feminina totalmente descolada do usual, detentora de uma personalidade ímpar, uma feiticeira durona, mandona e bela, capaz de se virar sozinha sem precisar da ajuda de um mocinho num cavalo branco para salvá-la. Aliás, ela parece fazer do nosso Geralt gato e sapato, pelo menos nos dois contos iniciais. A caçada ao dragão é ótima já pela preparação para o combate, quando os caçadores se reúnem e discutem as táticas de enfrentar a fera e como dividirão os espólios. Muito bem executado.

No segundo conto, Um fragmento de gelo,estamos num outro tempo e lugar. Ficamos num lenga-lenga danado sobre a relação de Geralt com Yennefer, sobre o passado amoroso deles e o futuro, onde Yennefer, como quem não quer nada, lhe põe um par de chifres com um antigo amante. É uma DR interminável. Yennefer é uma presença universal nos textos de Geralt de Rívia, estando fisicamente presente ou apenas na forma de lembranças por parte do bruxo. Como disse antes, Yennefer tem uma personalidade muito forte e Geralt, que não tem sentimentos por ser um mutante (pelo menos é o que os outros dizem sobre mutantes), fica num dilema pessoal sobre o que deve ou não fazer com relação ao oponente amoroso. Um duelo é então marcado e quem viver ficará com o espólio. Mas a feiticeira não está muito afim de ser espólio de ninguém.

Depois vem, O fogo eterno, um conto muito mais voltado ao cômico, quando um doppler (ou mímico, como Geralt conhece) assume a forma de um comerciante ananico e rouba seus cavalos. Temos muitas reviravoltas onde o tal doppler mostra ser muito mais competente como administrador das finanças do que se esperava, com um tom muito menos sério do que o restante dos contos, até então mostrado. É um alento termos o jogo The Witcher, nesse ponto do livro, pois realmente não me agradou nem um pouco esse Geralt de Rívia menos sombrio e muito mais falador, com sua espada às costas servindo de mero enfeite. Sobressai-se, contudo, mais uma vez a excelente escrita e o ótimo trabalho de revisão da Editora WMF Martins Fontes (coisa raríssima em se tratando de fantasia, no Brasil).

Vamos então para outro texto, Um pequeno sacrifício, onde Geralt e Jaskier, o trovador seu amigo, estão às voltas com um príncipe que está apaixonado por uma sereia. Nesse ponto já deu para perceber que os textos sempre têm um convidado especial. Sempre é Geralt + alguém, no estilo team-up. No caso, Geralt se rende a beleza de uma amiga de Jaskier, uma poetisa, e ela se apaixona por ele. Mais um conto de amor nessa coletânea. Geralt tem que lutar contra seres das profundezas do mar enquanto a sereia é seduzida por um príncipe. Argh! Texto muito... “diferente” do que eu esperava, num livro dedicado a um caçador de monstros que virou ídolo de muitos admiradores da fantasia medieval. Fico me perguntando quando é que o bruxo vai sair por aí, matando feras e expondo vísceras, para animar um pouco esse livrinho, meloso demais até aqui. Começo a sentir saudades da tal “...força de seu punho numa espada...” e “...grande habilidade na luta armada...”.

Finalmente chegamos ao melhor texto do livro. Em A Espada do Destino, conto que dá nome ao livro, Geralt se embrenha num floresta encantada, dominada por sanguinárias dríades (ninfas dos carvalhos) dispostas a tudo para manter sua querida floresta de Brokilon livre da presença dos humanos. Eu disse que todos os contos nessa obra são um arcabouço para as aventuras de Geralt de Rívia, mas esse, em especial, é mais que nos outros. Se em cada um deles conhecemos aspectos da vida do witcher, aqui descobrimos um pouco sobre Ciri, uma menininha que, segundo as profecias, deveria se tornar uma bruxa. Cada fragmento do texto se junta ao todo, dando a ligeira impressão que não estão encadeados cronologicamente, mas como a todo momento temos flashbacks, a sensação de confusão é até proposital. Nesse ponto, já sabemos muito sobre a vida pessoal de Geralt, sabemos que Yennefer é sua paixão, sabemos também que ela não dá tanta importância assim a Geralt e sabemos inclusive o porquê dessa rejeição. Sabemos porque Geralt é um bruxo, e quais suas convicções.

No último texto, Algo mais, Geralt é defrontado com aquilo que ele sempre duvidou existir, algo que ele sempre fez questão de desdenhar: seu destino. Todo o livro serviu para estruturar um personagem muito bem planejado, complexo, vivo, vulnerável e sombrio. Se as histórias não são sequencias, são absolutamente complementares, às vezes abordando os mesmos temas, mas com visões muito diferentes conforme amadurecemos com o texto e entendemos melhor os personagens. Cada conto é portanto, uma parte do universo de Geralt que precisávamos saber, imagino, para acompanharmos melhor os romances que virão a partir do livro 3.

É interessante como nesses dois últimos textos nos aproximamos de vez do personagens dos games, como eu tanto queria. Tudo foi uma preparação para o final, melancólico, pungente e promissor. Há uma grande aventura nos esperando nos livros vindouros. A Espada do Destino cresce conforme se aproxima do fim. Raramente recomendo com tanta veemência um livro, como faço nesse momento. Simplesmente porque temos a junção de um escritor espetacular com uma habilidade escrita fenomenal, além de uma revisão absolutamente impecável por parte da WMF Martins Fontes. Só poderíamos ter uma coletânea genuinamente fantástica. A Espada do Destino realmente vale cada centavo.















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