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[Resenha] A Canção do Sangue - Anthony Ryan

>> quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015



Quem é Anthony Ryan? Escocês, nascido em 1970, mas que por viver a vida toda na Inglaterra, diz-se inglês. Escritor (já é alguma coisa...), autor de A Canção do Sangue (Editora Leya, 2014), livro auto publicado, primeiro volume da série A Sombra do Corvo, descoberto pela Penguin Books em 2012, o que fez com que a editora encomendasse uma trilogia e trouxesse o autor, definitivamente, para os holofotes. Mesmo com alguns problemas, A Canção do Sangue é um dos melhores livros de fantasia medieval que li nos últimos tempos. E tem gente que ainda tem preconceito com relação a autores que se auto publicam...

A primeira impressão que tive do livro, advinda da capa, não foi das melhores. Um corte parcial e desajeitado do tronco de um guerreiro em armadura segurando uma espada, no estilo dos livros “hot”. E o nome do autor, para mim desconhecido, também não ajudou. Mas bastaram algumas poucas páginas para ver que ele sabe realmente escrever. Não precisa muito. Deu para notar um critério, a capacidade de concatenar boas frases, inserir a narrativa de forma coerente e criar um clima sombrio, ao mesmo tempo aventureiro, com boas tiradas e humor nos lugares certos. Mas ainda restava uma coisinha, uma pequenina pulga atrás da orelha...

Quem leu os dois primeiros volumes da série do barbudo Patrick Rothfuss (iniciado com A Sombra do Vento), lembra-se claramente que um escritor (o Cronista) acabava chegando por acaso à taberna de um indivíduo, com cabelos vermelhos e ar melancólico, que começava a lhe contar aventuras sobre uma lenda humana conhecida como Kvothe. Ladrão audaz, feiticeiro, matador de monstros, regicida, hábil com as mulheres, exímio menestrel... Bem, A Canção do Sangue é quase uma colagem desses pressupostos narrativos. Plágio? Querido leitor, vamos devagar com o andor. Utilizar-se da influência que o mundo nos oferece, como artistas, não é nada mais que o dever de um escritor! As linhas gerais da história são semelhantes, certo, mas pontuais o suficiente para parar por aí. A Canção do Sangue é muito mais que mera cópia.

Temos um prisioneiro, Vaelin Al Sorna, sendo levado para uma missão estranha, que no começo do livro nos parece obscura demais para podermos concluir do que se trata. Ele está sob escolta e há um escriba que o acompanhará numa viagem de navio, com a finalidade de registrar o enfrentamento deste exímio espadachim num duelo. Há “donzelas” que precisam ser vingadas e muito pouco nos é explicado além disso, nesse momento inicial.

Logo vemos que Al Sorna é complacente com sua situação. É um prisioneiro, mas sequer usa algemas. Aliás, ele mesmo solicita que seu guarda as coloque nele para evitar que o povo fique violento, na passagem por Linesh, uma cidade do Império Alpirano. Vemos como o ex-governador da província vem a ele, numa amizade submissa e aparentemente incoerente, já que aquele é supostamente o país invadido e Vaelin o invasor, e ele lhe entrega a antiga espada de desenho asraelino, que lhe deu uma das muitas alcunhas que possui. O Cronista da vez, Verniers, que o acompanha, escreveu um longa narrativa, anos antes, detalhando como fora a invasão do Império pelos “bárbaros do rei Janus”, e como Vaelin, “sanguinário e presunçoso”, tornou-se a principal vilão, o matador “do” Esperança.

Portanto, A Canção do Sangue não é tão semelhante ao mote abordado por Rothfuss, não é? E a história vai se descolando ainda mais a partir daí. É que Vaelin leu a obra escrita pelo companheiro de viagem e sugere que um ponto ou outro não possui a fidedignidade pretendida. Verniers, como todo escritor, sente-se ofendido, em sua vaidade. Afinal, o prisioneiro tem a ousadia de lhe dizer que sua obra está equivocada. Ele argumenta, Vaelin contra-argumenta e surge então um momento de fricção, onde um fato novo tem que ser explicado. O cronista, na sua curiosidade natural de ouvinte (e nós também estamos inseridos nessa categoria), pede então que ele relate sua versão dos fatos, já que Vaelin é protagonista neles.

E aí, caros leitores, imergimos de vez numa deliciosa e sinistra aventura! Vaelin Al Sorna, órfão de mãe, começa contando como foi largado pelo pai, em meio à neve, nos portões de uma Ordem de guerreiros, para ser educado na disciplina da espada. Conta-nos como foram cruéis os primeiros momentos e depois sua rotina, as diferenças com os colegas e a amizade que surgiu, inevitavelmente, com a miséria compartilhada por todos. As primeiras lições, os conflitos com a Fé, os golpes com as varas dos mestres a cada erro, as provas de vida e morte, que começam a ceifar os colegas um a um. Tudo isso vai alicerçando uma lenda, que no futuro vai nos levar àquele navio.

A primeira parte do livro é dedicada ao sofrimento do menino Vaelin, os primeiros anos, sua humilhação e amadurecimento, a raiva por ter sido abandonado pelo impiedoso pai, o Senhor da Batalha e Espada do Reino, o campeão do rei, e os estranhos e inquietantes atentados que passa a sofrer, sem que isso ainda nos seja explicado. Vaelin cresce com o grupo, roubando, apanhando e lutando; a Sexta Ordem, assumida com uma irmandade de fato, os ensinamentos dos mestres, as habilidades adquiridas nos campos de treino e as dificuldades em desenvolvê-las. Vemos o garoto virando homem, sua vida difícil e os dias sombrios que marcam o crescimento. Um texto muito bem escrito, não fossem muitos deslizes cometidos pela revisão que, como sempre, deixa a desejar por parte da Editora Leya.

A segunda parte do livro se inicia também com o navio que leva Vaelin e Verniers, pelo mar erineano. Novas impressões são trocadas e o cronista finalmente se rende ao relato do prisioneiro, anotando cada palavra com desvelo. Vemos as provas finais pelas quais Vaelin tem que passar para se tornar um irmão da Sexta Ordem. Somos apresentados a outros personagens, ao primeiro amor e para as outras Ordens, e mais uma vez vemos a lenda se firmando, primeiro dentre seus irmãos, depois com o próprio povo de Varinshold onde a fortaleza da Ordem se ergue, quando Vaelin Al Sorna luta e mata seus primeiros adversários — para seu azar, soldados do reino.

É intrigante como certos enigmas que vão displicentemente surgindo, são explicados. Anthony Ryan mostra sua habilidade escrita, nem sempre grandiloquente, mas sempre muito bem inserida na trama. Vemos porquê é uma obra de fantasia, com as primeiras menções a magia. Entendemos que As Trevas, como os irmãos chamam, estão influenciando o mundo. Há uma trama oculta que começa a incomodar o jovem guerreiro, que suspeita dos próprios dirigentes das Ordens. As páginas se viram sozinhas e quando vemos já estamos no meio do livro.

Resta-nos ainda saber exatamente o que é a Canção do Sangue. Vaelin, desde pequeno, é auxiliado por um lobo, que o salva por duas vezes da morte, e uma terceira de algo muito pior, segundo suas próprias palavras: o assassinato de um amigo. O aparecimento do termo no livro separa as duas partes iniciais, a infância da maturidade. A partir do momento que o termo surge, é repetido a cada página. Fica até estranho. Vemos então a transformação de um garoto em algo que ele próprio aprendeu a odiar. Vaelin reconhece sua ligação com as Trevas, mas não é assim que aprende a chamar, quando cruza o caminho de um Negador.

Negadores possuem o “dom”, veneram deuses estranhos a Fé, são perseguidos como hereges e mortos por isso. A canção do sangue se manifesta de diversas formas nos portadores do dom. No caso de Vaelin, permite que reconheça mentiras nas pessoas, alerta-o de perigos iminentes, detecta outros “cantores” ou mesmo que navegue entre as realidades e converse com seres espirituais, que vão lhe revelando mais sobre o dom.

É assim que ele detecta a falsidade no rei Janus, que o manipula para que seja seu novo Espada do Reino, o que o opõe ao novo Senhor da Batalha. Um desafeto de Vaelin, surgido das próprias armações do rei. As descobertas de Vaelin continuam, caçando e conhecendo outras terras. Combate os lonaks, caça Negadores nas florestas Martishe (o que, nesse momento, nos parece ligeiramente contraditório), viaja pelo mar para conquistar os portos do Império Alpirano, onde a cobiça do rei Janus diz estar o futuro: especiarias e seda. É o que ele sempre repete. Vaelin tem que se sujeitar a esses caprichos, servindo de soldado, assassino e campeão de um rei que despreza. Janus usa a Fé para justificar suas atrocidades, e as Ordens tem que servir à Fé.

Uma ótima história, mas a partir do momento em que o termo "canção do sangue" começa a se repetir a cada página, parece que vemos um decaimento na qualidade do livro. Alguns acontecimentos parecem desencaixados, ou porque desembocam em coisas triviais demais, ou porque surgem sem qualquer importância e, de repente, adquirem. O texto é confuso, muitas vezes. A causa da volta de Vaelin para o Império, por exemplo, me pareceu à beira da incompreensão. Temos uma história então, que ainda é empolgante, mas não tão habilmente escrita afinal, uma trama não tão bem costurada, mas personagens esplendidamente elaborados, cada um com sua personalidade e razão de ser, mas com pontas que parecem não ter sido satisfatoriamente amarradas.

Por que o rei Janus ficou tão obcecado para que Vaelin ficasse ao seu serviço, afinal de contas? E a princesa Lyrna,entrou e saiu da vida de Vaelin sem mostrar a que veio. E a história do atentado aos Aspectos, por que ela não me parece convincente? E o motivo que levou Vaelin a seguir o conselho do Aspecto Arlyn, de aceitar defender a Fé na guerra inventada do Rei Janus, que maçaroca! Por que Vaelin resolve dopar Sherin, quando a guerra acaba, e mandá-la de volta? O que o impede de viver com ela, como haviam planejado? Quem leva Vaelin de volta ao império, para o duelo, a espinha dorsal do enredo de Anthony Ryan, é a Senhora Emeren. Oi? Quem é ela mesmo? 

Apesar de ficarmos o livro todo vendo a reação de Vaelin com relação ao pai, um contato entre eles nunca ocorre, nem indiretamente, quando ele conhece a irmã. Parece que faltou algo. Muitos “algos”, na verdade. Tudo é muito enrolado. Uma história que perde a força conforme avança. No último capítulo descobrimos a resposta para o maior mistério do livro, mas com uma informação muito mal inserida só no capítulo anterior! O autor não deu pistas para o leitor seguir a linha de raciocínio e tirar as próprias conclusões. Faltou habilidade. Pareceu que o livro foi finalizado às pressas. Um final chocante demais que deveria ser melhor trabalhado.














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