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A Morte da Luz - George R. R. Martin

>> sexta-feira, 10 de outubro de 2014



Pouca gente conhece os outros livros de George R. R. Martin. Alguns acham que ele surgiu de algum buraco no chão e já foi logo publicando As Crônicas de Gelo e Fogo, com as quais se tornou mundialmente famoso, brindando-nos com uma das maiores epopeias de fantasia medieval de todos os tempos. Não! As origens de Martin vem mesmo da ficção científica, e A Morte da Luz (Editora Leya , 336 páginas, 2012) é um desses livros que foram trazidos na esteira do sucesso retumbante d’As Crônicas. 

Um livro de FC daqueles clássicos com planetas estranhos e viajantes espaciais, mas não uma Space Opera, como Star Wars. Algo mais intimista, centrado num mundo moribundo e num casal humano enfrentando uma DR intergaláctica.

Worlon é um mundo errante, povoado e colonizado por uma coalizão de povos para se tornar habitável e vicejante. Mas os planos não saem como desejado, e o mundo de Worlon, que veio do nada, parece não se prender à órbita que lhe foi artificialmente planejada, no sistema estelar onde achavam que iria estacionar. Não, ele continua sua trajetória errante e começa a escapar para além, para o frio vácuo espacial. Todo o trabalho perdido. Após tanto esforço para terraforma-lo, cada planta e cada inseto alienígena, ali introduzidos, está fadado a fenecer, na escuridão. E cada cidade planejada, por cada um dos povos, reunidos no objetivo comum de criar esse mundo, torna-se um fantasma tecnológico, o cenário para que Dirk e Gwen tentem resolver (quiçá, retomar) um passado amoroso que fracassou, anos antes.

A história, mais ou menos, começa com Dirk t’Larien vindo à Worlon, após receber um colar que dera para sua antiga namorada, Gwen. Ele sabe que isso é um pedido para que ele vá até ela, pois planejaram assim, anos antes, quando ainda eram os mais importantes um para o outro, mas muita coisa mudou, muito tempo se passou, e as certezas não passam agora de possibilidades. E assim, Dirk vem a Worlon, onde Gwen trabalha como pesquisadora, ligada a documentação ecológica do planeta que, a cada dia, se afasta mais de suas estrelas vitais, que lhe concedem calor e luz. O título da obra, A Morte da Luz, claramente reflete esse argumento narrativo, embora haja aí uma metáfora um pouco mais obscura, relativa a própria historia envolvendo estes dois personagens principais, além de um terceiro.

Gwen, agora é “casada” com um humano nascido de uma colônia alienígena, Jaan Vikary. É bom que se esclareça que ninguém aqui nasceu na Terra, que é apenas um planeta antigo, lembrado apenas uma vez ou outra na história. Outros planetas foram povoados pela espécie humana e alguns deles se tornaram mais importantes que a própria Antiga Terra. Jaan é de Alto Kavalaan, Dirk e Gwen vem de Ávalon; esses planetas/ colônias tem agora costumes e culturas próprias, que diferenciam muito os humanos de um lugar e de outro. Jaan vem de um cultura religiosa arcaica, baseada na dominação do homem sobre as mulheres, e sobre os outros povos. São beligerantes, xenófobos, misóginos, heterófobos e quase tribais. Já Dirk e Gwen vem de uma civilização mais avançada, nos moldes de uma civilização futurística como podemos conjecturar. E a disputa psicológica desses dois personagens é o que cerca Gwen e a mantém no centro de suas atenções.

Isso faz com que o livro seja muito mais cerebral do que se imagina de início. Ele põe em contraste duas civilizações completamente distintas, sendo que Jaan é um homem extremamente moderno para os padrões de seu povo. Ele é um filósofo, um estudioso, e caiu mesmo em desgraça por defender pontos de vista modernos demais para sua sociedade, arcaica e inflexível. Suas opiniões o afastaram da maioria dos outros clãs, embora tenha conquistado prestígio dentro destas mesmas tradições quando precisou agir como um kavalariano, o que trouxe até mesmo simpatia às suas ideias revolucionárias, por parte de alguns mais esclarecidos. 

Sua dualidade kavalariana é reforçada pelo seu “parceiro” Garce Janacek, que é muito mais que um amigo. Garce é seu companheiro de caçadas, seu amante, um irmão de alma escolhido. É o lado da tradição, lembrando a Jaan, o tempo todo, que ele é um alto-senhor do clã Jadeferro, que tem reponsabilidades a cumprir, regras a seguir e dever de reverência às tradições que Jaan não despreza, mas luta por mudar. Garce odeia Gwen por Jaan amá-la e não tratá-la como um kavalariano tradicional deveria tratar uma mulher, mas a respeita pelo seu senhor, e até a protege, já que essa é a tradição.

Os antagonistas são os braiths. Um outro clã de kavalarianos que habita Worlon. Eles permaneceram em maior número, pois ali podem praticar a Grande Caçada, que a um kavalariano é permitido, e os quase-homens são caças especialmente apreciadas. Um quase-homem é qualquer homem que não seja de Alto Kavalaan. Não são considerados humanos e podem ser perseguidos, chacinados e suas cabeças tomadas como troféus, que exibem com orgulho. Jaan permanece em Worlon, basicamente para proteger os outros humanos que não pertencem a sua raça. Pois as tradições dizem que com sua proteção, os braiths não podem caçá-los. É um humanista, abnegado e corajoso, metendo-se em apuros por acreditar em uma ideia, atraindo a ira dos braiths, com o intuito de proteger qualquer um que puder, da crueldade dos seus compatriotas.

A coragem e sensibilidade de Jaan Vikary logo nos assalta, quando confrontado com Dirk t’Larien, que é só comum, apaixonado, temerário em seus atos e frágil em suas aspirações à Gwen. Se no início do livro somos levados a apoiar e torcer por este personagem, logo começamos a mudar de opinião, quando o vemos metendo os pés pelas mãos e se mostrando tão incompetente em levar adiante o resgate de sua amada, a ponto do próprio Jaan ter que vir em seu socorro mesmo após ter sido traído. Dirk e Gwen, correm de cidade em cidade fantasma, tentam se refugiar nas construções suntuosas e quase abandonadas desse mundo crepuscular, mas atrás deles estão os caçadores braiths. O Destino dos dois parece estar traçado, e as perspectivas não são nada boas.

Esse é o mote principal de A Morte da Luz. Vemos o contraste entre conceitos e culturas, vemos os acertos e desacertos de um homem que atravessou o vácuo interestelar atrás de um amor que já não possuía, mas também a realidade que se interpõe entre o sentimento incondicional e o dever moral. A morte de um planeta é melancólica, mas há ainda a fuga do casalzinho e o inevitável “cair na real” (a real morte da luz, para mim), depois de arrumarem muita confusão, sem se importarem em ferir sentimentos.

É de admirar a habilidade de mestre George, mais uma vez, tecendo suas impressões narrativas de forma extremamente competente, com sua escrita fluída, precisa, mas sem nunca ser árida, com descrições perfeitamente dosadas para não serem enjoativas, permeadas de certo lirismo, sem nunca serem piegas. É o melhor escritor de literatura fantástica da atualidade, fazendo o que melhor sabe.

Há uma mensagem muito significativa na escrita desse livro. George Martin é o cara, e através das discussões entre Garse e Dirk, vamos nos deixando levar pela filosofia embutida em A Morte da Luz, sua principal mensagem. Com as contínuas lições de moral ou as descrições que Garse faz a Dirk, vamos nos inteirando, não apenas das diferenças entre culturas, mas as diferenças que fazem um homem dizer-se humano e não considerar outro como tal. Para os kavalarianos, um homem só pode ser um cavalariano; outros, como Dirk, sequer são humanos. A biologia, que os iguala, é ignorada. Apenas kavalarianos possuem alma. Isso se chama intolerância.

O que a cultura, a formação ou os costumes podem fazer com uma pessoa, a ponto dela olhar para um semelhante, e não vê-lo como tal? Se pudermos utilizar de uma certa paridade filosófica, o que faz um homem olhar para outro, de uma religião diferente e não considera-lo um igual? Por que um homem pode pensar que possui uma alma imortal e um outro, de um outro credo, ser desprezível a ponto de merecer nada mais que a morte? Fanáticos, é o que são. Fundamentalistas, ignorantes e nocivos à humanidade.

Estendamos o conceito aos homens com uma opinião política diferente, aos de uma opção sexual diferente, de um país diferente ou com a cor da pele mais clara ou escura? Temos tudo isso aqui, no nosso planeta preconceituoso, onde os costumes de um povo podem ser recheados de estupidezes, como nos mostra Garse Janacek em Worlon. A burrice e a falta de saber não difere um homem de outro, mais culto e instruído, pois a maldade é, muitas vezes, cultural! As diferenças culturais podem nos fazer esquecer que somos TODOS seres humanos. Só a gentileza e o amor, por sua vez, podem nos fazer esquecer que somos sempre, em alguma medida, diferentes, e que isso NÃO importa.


Temos um final “mais ou menos”, dentre todas as opções mais previsíveis à disposição do autor. Martin opta por uma saída inusitada e surpreendente, na verdade, e até de alguma implicação lógica prejudicial para toda a trama. Podemos absorver que Dirk enfim entendeu o que é ser um kavalariano, mas compreender não significa aceitar como seu. Talvez uma saída mais fácil pudesse coadunar melhor as ideias aqui discutidas. Uma simples despedida, talvez, livrando-se da pedra da alma que ligava Dirk a Gwen, e então subir na nave espacial e voltar para casa. Seria como dizer que a lição fora aprendida, que a roda havia girado e que a fila tinha que andar. Só isso, mas não espere o óbvio de mestre Martin.



















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