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Belas Maldições - Neil Gaiman & Terry Pratchett

>> segunda-feira, 29 de setembro de 2014



Certa noite, onze anos atrás, duas crianças foram trocadas numa maternidade. Assim começa Belas MaldiçõesAs Belas e Precisas Profecias de Agnes Nutter, Bruxa – (Editora Bertrand Brasil, 2005, 378 páginas). Um sinistro início de trama, principalmente porque a troca não ocorre como planejado e, por descuido da atrapalhada enfermeira, as crianças vão para lugares errados, e com um pequeno detalhe a mais: uma delas não era ninguém menos que o próprio Anticristo. Com um humor gótico intrínseco a combinação Gaiman/ Pratchett, temos um texto engraçadíssimo, que aborda a vinda do apocalipse bíblico, com as cores do mais perspicaz humor inglês.

Logo de início conhecemos Crowley, um demônio. Experiente e conhecedor da humanidade, desde Adão e Eva, e não é demais dizer que ele próprio fora a serpente. Já Aziraphale é sua nêmesis, um anjo que está aqui na Terra a serviço do inefável, cuidando para combater o mal. Mas, pelas artimanhas do destino, tanto Crowley quanto Aziraphale, por já estarem a tantos milênios na Terra, acabaram por se afeiçoar um ao outro. Afinal, são velhos companheiros de jornada, cada um na sua seara, mas mesmo assim o tempo fez com que passassem a se conhecer e a convivência contínua ajudou também. E além disso, passaram a gostar do ser humano, de suas idiossincrasias e atitudes, a ponto de se verem contrariados quando a última e mais importante missão de suas existências finalmente chega: o Armagedom.

Nem Crowley nem Aziraphale querem que aconteça. Ok, se prepararam por seis mil anos para esse momento, mas quando ele chega mesmo, dá aquela sensação de perda. Gostam tanto de viver aqui que o invés de colaborarem para o fim, começam a despender esforços na tentativa de evitá-lo. As confusões em que se metem procurando o jovem Anticristo, carinhosamente batizado como Adan, por sua carinhosa família adotiva, e alguns outros personagens, como a descendente da bruxa Agnes Nutter, a jovem Anathema Device (os nomes são tão inusitados quanto a trama) e o caçador de bruxas Não-Cometerás-Adultério Pulsifer, são absolutamente desconcertantes, tendo-se em mente o Fim do Mundo. Cenas criticamente inglesas, diálogos rápidos e ferinos como tiroteios e desenlaces inacreditáveis vão se intercalando e construindo um filme de um non sense hilariante. 

Tenho que falar dos detalhes. Há um ditado inglês que diz “o diabo está nos detalhes”, e nada mais adequado ao mote do livro. Gaiman/ Pratchett vão contando sua história, com toneladas de detalhes sorrateiros e interessantes, muitos deles em notas de rodapé, onde vão colorindo cada linha do livro. Minúcias engraçadas, às vezes reais, e toneladas de alusões a ícones pop, como Elvis Presley, são absolutamente imprescindíveis para o clima engendrado na narrativa. Eles vão preenchendo uma colcha de retalhos com toda espécie de alusões e referências, nem todas fáceis ou de domínio de um não britânico, mas as inferências são possíveis, recheadas de ironia, certa maldade e regadas de comicidade.

A criatividade desses dois gênios produz passagens como a do feroz cão infernal que é despachado para cuidar do Anticristo, mas como Adan não sabe ser quem é, o cão assume a forma de um pequenino poodle, e a crise existencial do animalzinho por começar a gostar de ser o que se tornou é de esborrachar de tanto rir. Já a cena em que os Quatro Cavaleiros do Apocalipse se encontram num bar, é das mais criativas e divertidas que já vi num livro. Imagine um café de beira de estrada, onde há um cara jogando numa máquina eletrônica de trívia, tipo um caça-níqueis, onde perguntas de quatro assuntos escolhidos a esmo são feitas. Há ali um grupo de motoqueiros durões e mal encarados, que ficam tentando adivinhar as respostas, sempre acertadas pelo jogador nos controles e, passo a passo, com a chegada de outros motoqueiros no recinto, que vão se juntando numa mesa específica, os temas vão mudando. Num instante as perguntas são somente sobre Guerra, Fome, Morte e... Poluição (é que, com a descoberta da penicilina, em 1929, Peste se aposentou).

Não me perdoo por ter deixado esse livro esperando na minha estante por tanto tempo. Isso porque agora resolvi ler um Neil Gaiman, por estar envergonhado de, até hoje, não ter lido nenhum. Só que, quem entende do Gaiman, diz que Belas Maldições é Terry Pratchett puro. Se vou querer conhecer realmente um Gaiman, terei que partir para outro título do autor, certamente um solo. Contudo, não posso dizer que me arrependo desse. As Belas Maldições é a melhor surpresa que tenho nesse ano de 2014!


















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