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World of Warcraft: A Ruptura - Christie Golden

>> sexta-feira, 8 de novembro de 2013




Quando vi, há alguns meses, o lançamento de World of Warcraft – Marés da Guerra (Ed. Galera Record, 2012), fiquei muito animado. Finalmente teríamos no Brasil os romances da tão aclamada franquia da Blizzard em terras brasileiras (a Blizzard Entertainment é uma editora e produtora de jogos de computador americana). Contudo, logo de cara, começaram os problemas. É que Marés da Guerra começa a história muito depois de seu início. Para se ter uma ideia, é o décimo primeiro volume da série. Por que a Galera Record tomou essa decisão é coisa para se pensar. O fato é que não esperavam que fizesse o sucesso que fez e decidiram lançar mais um volume da série, nesse caso,World of Warcraft - A Ruptura (Galera Record, R$35,00, 339 páginas), volume 9 da saga!

Nunca é demais lembrar que World of Warcraf é um game online de retumbante sucesso no mundo todo, que na sua fase de maior popularidade chegou a ter 9,6 milhões de contas ativas (esses números variam a cada artigo que leio na net, por isso desculpem se estou dando uma bola fora, o que interessa é que é um número gigantesco)! Foi introduzido no primeiro jogo da série Warcraft: Orcs & Humans em 1994, jogo que passei dias e noites de absoluto deleite jogando e que foi um dos maiores culpados pelo fato de eu ter me tornado escritor de literatura fantástica (juro!).

Mas porque a Galera Record lança o vol.9 agora? Talvez seja porque esse livro inicia um importante arco narrativo que leva aos eventos conhecidos como Cataclismo, uma das expansões de WoW que fez tremendo sucesso no mundo todo. Se isso for verdade, perderemos toda a absurdamente inquietante trama de WarCraft III: The Frozen Throne, que levou a transformação de Arthas Menethil, o querido filho do rei Terenas Menethil II, no Lich Rei, e eu sinto arrepios até hoje ao lembrar dos cinematics do jogo quando Arthas, com os cabelos já brancos, ia até o palácio em Lordaeron, para confrontar seu pai e bem... criou um escritor de fantasia brasileiro.

O fato é que toda a dificuldade de nos localizarmos no tempo, como aconteceu em Marés da Guerra (o vol. 11, no caso), se repete aqui também em A Ruptura. É que os personagens e boa parte das 100 páginas iniciais se perdem elucidando fatos passados, relembrando acontecimentos que foram narrados nos 8 livros anteriores e nos games. Uma tonelada de conteúdo até chegarmos onde estamos. WoW é um universo muito amplo. Existe um exército de criadores de conteúdo trabalhando na Blizzard e cada romance conta um grande pedaço da história de Azeroth, o mundo onde a Horda, controlada pelos orcs, e a Aliança, dominada pelos humanos, batalham infindavelmente. Esses flashbacks são tão abrangentes e significativos que até o momento quase nada aconteceu na história de A Ruptura. Ficamos num recordar infindável e a sensação é a de termos pego o bonde andando (o que é a mais pura verdade!). Mas o pior de tudo, é que já sabemos de antemão muitas coisas que vão acontecer nesse livro e nos próximos, já que lemos um livro que vem cronologicamente depois na série. Marés da Guerra, o vol. 11, são 350 páginas de spoilers daqui até o volume 10. Como é que puderam ignorar um detalhe tão relevante? É inacreditável que a Galera Record tenha feito isso.

No ponto onde estamos, o tauren Caerne Casco Sangrento, grande líder e um dos principais chefes da Horda, resgata o general orc Garrosh Grito Infernal do continente da Nortúndria, e o leva de volta a Orgrimmar, a capital do império onde o Chefe Guerreiro e xamã, Thrall, os recebe com festa. Contudo, Garrosh é um guerreiro afeito às raízes órquicas, um ser brutal e traiçoeiro que acaba se aliando à bruxa tauren Magatha Temível Toten. Ataques sorrateiros e sangrentos são perpetrados contra os elfos noturnos, aliados da Aliança, quebrando o armistício entre as raças e o ato acaba sendo creditada na conta de Garrosh. Isso é uma grande provocação e o Rei humano Varian Wrynn está próximo de retomar a guerra contra a Horda. Contudo, há alguma coisa que incomoda os espíritos elementais, causando terremotos, secas e enchentes. A feiticeira humana Jaina Proudmoore atua como diplomata, visitando, ora o rei Varian, ora o líder dos orcs, Thrall, tentando achar uma solução diplomática para a deterioração das relações de paz entre as facções.

Se há uma coisa que não gosto em WoW é essa coisa de orcs procurarem a paz, ter diplomacia e agir civilizadamente. Orcs são violentos e insanos, brutais e terríveis! “Humanizar” seu comportamento é uma descaracterização ruim do clichê, na tentativa de arredondar psicologicamente a raça e dar alguma relevância à literatura feita a partir da série. Me incomoda tanto quanto desgosto de vampiros bonzinhos ou zumbis vegetarianos.

Essa tentativa de aprofundar a literatura mostrando que orcs também podem ser coitadinhos é uma escolha da Blizzard e está lá nos games desde que que se tornou online, de tal forma que as partidas PvP (pessoa versus pessoa), onde jogadores se aliam a uma facção, pudessem ser balanceados (senão todo mundo iria ser mocinho e não teria bandido). Portanto, o que resta a escritora Christie Golden é seguir a imposição do universo de WoW sem oportunidade de questionar nada, sem influir consideravelmente com suas ideias ou liberdade criativa, uma batata quente que ele aceitou em troca de grana, e por isso deve pagar o preço de um texto inverossímil, agora. Isso tira muito da importância da obra como literatura séria, aproximando-a de um simples veículo oficial de cooptação de corações, mentes e grana para o jogo online, como reza a boa filosofia capitalista/ ianque, no mundo. Mas é uma escolha: paga quem quer!

Após a introdução passamos a percorrer alguns cenários junto com o filho do Rei Varian, o jovem príncipe Anduin (sim, você já leu esse nome em O Senhor dos Anéis. Anduin é o nome de um rio que passa próximo ao Condado dos hobbits. WoW não deixa de invocar a maior obra de fantasia de todos os tempos, numa clara homenagem). Anduin está sendo treinado para assumir a função de seu pai, no futuro, mas acaba se envolvendo pessoalmente nos desastres que assolam toda Azeroth. No caso, no país dos anões, onde Moira Barbabronze reclama o trono para si, após a morte do rei Magni. Já Thrall precisa viajar para Draenor, onde pretende consultar a Grade Mãe Geyah, para ver se consegue se comunicar com os elementais enfurecidos. Contudo, deixa provisoriamente no comando da Horda ninguém menos que Garrosh Grito Infernal, a própria raposa cuidando do galinheiro. Um imenso contrassenso, tendo-se em mente que o que Garrosh quer é incendiar o mundo numa guerra contra a Aliança.

Christie Golden tenta explicar a decisão de Thrall, de deixar Garrosh no comando da Horda, mas não convence. Thrall até vislumbrou as outras opções que tinha, cogitou Caern, o líder dos tauren, mas esse era velho demais, um ou dois outros nomes apareceram, mas possuíam o desejado para proteger a Horda. Garrosh acaba por ser escolhido então, por exercer uma grande influência sobre os orcs, por seu carisma e seu espírito guerreiro. E o que está errado nisso? Não é Garrosh, pois como disse, ele é um orc, pensa e age como um. Os orcs veem nele um líder, pois orcs gostam de sangue, de matar e trucidar. O contrassenso é Thrall ser o líder atual, isso sim! Pois ele não é nem um pouco como um orc: sanguinário, feroz e caótico. Thrall, segundo o que descobrimos no livro, nasceu e foi criado por humanos, por isso não é um animal enfurecido, mas almeja a paz e entende o valor dela. Lá atrás, em algum volume da série que a Galera Record não vai publicar, foi explicado como Thrall chegou a se tornar o líder dos orcs e fundar a Horda. Como é que um cara tão diferente dos de sua própria espécie foi se tornar o grande Chefe Guerreiro da Horda, eu não sei e não é matéria do presente livro. Ficamos boiando.

Continuando... Sendo Thrall quem é, deveria ter visto, mais claro que a água, que Garrosh poria tudo a perder na primeira oportunidade. Deveria ser o maior senão de todos, mas ele não viu isso, por raciocinar que Garrosh levaria de novo à Horda o orgulho e a honra... Honra? Num orc? Essa miopia do xamã (e da Blizzard) é irritante, totalmente despropositada e não convence. Não dá para jogar meu cérebro no lixo e aceitar um troço desses porque a Blizzard resolveu fazer umas mudanças em WoW para reagir a queda do número de contas ativas no game.

Apesar de tudo, o livro é bem escrito. Christie Golden tem essa habilidade. E somado a isso, temos até uma boa história. Mas livros bons deixam aquela sensação de orfandade quanto o terminamos, certo? Isso não acontece em A Ruptura, contudo, arrastado e superficial demais. É que as soluções arrumadas pela autora, para algumas situações que aparecem na trama, são muito ruins: Thrall deixa Garrosh comandando a Horda, como já dissemos, ou quando Anduin usa a pedra de teletransporte dada por Jaina Proudmoore e a encontra numa conferência com Baine. Nessa ocasião, o menino passa a falar coisas maduras demais para um rapazinho de 13 anos. Não adianta salientar o espanto de Jaina com o tom adulto do garoto.

O menino toma decisões altamente políticas e avançadas, e tanto Jaina quanto o pai (o próprio rei e líder da Aliança!), lhe dão ouvidos?? Tenha dó! Muito pouco presumível que chefes de Estado e diplomatas treinados dependam da opinião de crianças para tomar decisões, mesmo sendo essa criança quem é. E quando Baine se levanta contra Magatha e seus Temível Totem, então? Após a traição toda que chacinou inocentes, matou o pai e culminou com a morte de um monte de taurens, ele toma a decisão que tomou??? Sinceramente... Nem monges budistas seriam tão bonzinhos. É tão politicamente correto que até enjoa.

Há ainda a situação toda de Thrall fazendo sua jornada espiritual, com o auxílio de Aggra, a xamã. A autora conta, mas não conseguimos enxergar ou nos convencer da transformação de Thrall. A coisa toda parece muito forçada. Em suma, o livro carece (e muito) de convencimento. Será que imaginam que os leitores poderão aceitar essas soluções assim, sem usar o senso crítico? Mas há mais alguns detalhes que não passam despercebidos. Dentre eles, o fato dos anões falarem com termos inerentes ao linguajar gaúcho, como “Bah, guria...”, ficou muito fake. A cereja estragada no bolo, contudo, são os erros de português que despontam aqui e ali, a cada capítulo. Por si sós, não estragariam a experiência da leitura, mas, como pudemos ver, estão muuuito mal acompanhados.

Não pretendo continuar a acompanhar a série. Sei que há uma nova expansão do jogo, com ursinhos panda, uma nova raça que resolveram trazer para o game (não estou zuando, eu juro! Alguém da Blizzard realmente deve odiar Warcraft). O próximo volume da série a ser publicada pela Galera Record é o 12º: Sombras da Horda! Meu... Tenha dó. Fica aí a dica para quem não se importar em ser atirado daqui para lá entre os livros da série e para quem é fã de bichinhos fofinhos, como pandas, pôneis com chuquinhas etc.



Albarus Andreos

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