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Fios de Prata - Raphael Draccon

>> sexta-feira, 17 de maio de 2013



Quando tenho expectativas demais, me decepciono. Isso é batata! Geralmente, quando gosto de um livro, elogio porque sou movido pela emoção e ninguém segura meu contentamento. Já quando não aprecio, sou minucioso e emito minhas opiniões baseado na análise técnica de que sou capaz, para não deixar nenhum espaço para acusações levianas. E, infelizmente,  o que li até o momento, me desagradou demais!

É de se admitir, num texto longo, alguns errinhos esporádicos, ainda mais quando o autor tem um renome no meio literário. Um ou dois descuidos de português em 300 ou 400 páginas e alguma falha lógica que passou em branco por uma revisão. Alguns esbarrões na gramática pode ser considerado passável, mas, no mínimo, significa que a revisão não funcionou. O Word, por exemplo, vive me aprontando e erros de concordância de gênero e número às vezes me surpreendem, mas passo logo o rodo neles quando vejo e tento fingir que não estou envergonhado. Por isso revisar é tão importante. Contudo, ao bom texto, isso não é lá tão palatável, eu acho (eu acho? Eu acho, não, né. Isso é inadmissível! Erros demais em um livro inviabilizam-no como “bom livro” e ponto! E existem muitos erros em Fios de Prata). 

Nesse momento nem faço questão de comentar sobre o enredo ou os personagens, tamanha é a voracidade felina com que cacei os ratos soltos pelos cantos do livro (e eles encheram um enorme balaio). Pode haver até uma boa fábula por aí, mas eu ainda estou tão distraído com o todo o ruído provocado pelos deslizes e equívocos da escrita que não consegui me ater convenientemente a ela. É de se admirar que a equipe editorial da Leya tenha deixado passar o livro, justo do Draccon, nesse estado (Raphael Draccon é editor-chefe da Fantasy, um braço editorial da Leya, encarregado de publicar autores nacionais que não o próprio Raphael Draccon). Ressalto o péssimo uso da vírgula, deixando frases inteiras sem sentido. É falta de conhecimento da língua, mesmo. Seria conveniente que a Leya deixasse o trabalho de revisão e correção com profissionais mais qualificados e não a estagiários e aventureiros.

Sim, há uma história muito interessante, que o Draccon foi buscar nas HQs do Sandman, de Neil Gaiman (publicada originalmente pela Vertigo, braço da DC Comics, e trazido ao Brasil, pela primeira vez, nas décadas de 80/ 90, pela Editora Globo, e republicada a exaustão por várias outras editoras até hoje). O livro faz até uma invocação da série no frontispício do livro: “Reconstruindo Sandman”, como não poderia deixar de fazer, tal a alusão mais que ideal, à obra de Gaiman. Isso, na minha opinião, aproxima muito o trabalho de Draccon ao de uma fanfic, embora ele tenha criado dois personagens, o jogador de futebol Allejo e a ginasta Ariana, para encarnar os protagonistas de sua obra, que tenta ser original em algum ponto (incluindo o viés espírita correlato aos “fios de prata”, que dão título ao livro). Há também momentos de boa leitura, mas esses são sempre devidos a colagens que o autor faz de notícias e acontecimentos contemporâneos ou marcantes do século XX, onde guerras, crimes e turbulências sociais das mais variadas, são creditados aos pesadelos gerados devido à guerra no Sonhar (o universo dos sonhos onde se passa grande parte da aventura).

Há também o artifício bem interessante de mudar o tom impessoal quotidiano das falas, do mundo real, para o português arcaico, em segunda pessoa, quando nos transportamos para o mundo onírico (mundo dos sonhos). E pode-se perceber claramente o trabalho de pesquisa que Draccon liga ao plot (drogas, assassinatos, atentados etc.; tudo seria consequência de pesadelos no mundo imaterial), mas Draccon escorrega, às vezes, como no episódio que fala sobre o lançamento das duas bombas atômicas no Japão, durante a Segunda Grande Guerra: para Draccon, as duas bombas foram atiradas sobre Nagasaki, o que está errado (a primeira foi sobre Hiroshima). Noutra ocasião, ele se refere a Pôncio Pilatos (governante/ magistrado da Judéia, nos tempos de Cristo) como imperador de Roma (IMPERADOR??? Tenha dó...). Descuidos que desqualificam a pesquisa e que, no contexto geral, refletem a falta de cuidado com que a obra foi produzida.

A história gira em torno de Allejo, como Mikael Santiago é mais conhecido; um craque que está prestes a ser contratado pelo time francês Paris Saint-Germain. Conhece Ariana Rochembach (que, apesar do sobrenome germânico, é descendente de italianos, vai saber por quê...) e acabam se apaixonando e dividindo uma sina terrível: os sonhos que Allejo tem e que o transportam para o mundo de pesadelos e terrores. Por alguma razão, Morpheus, Phobetor e Phantasos, os lordes do reino dos sonhos e pesadelos, estão em guerra e Allejo é trocado por Ariana e seus pesadelos passam a ser habitados por ela. Uma proposta bem interessante e até ambiciosa, tendo-se em vista a imensidade de aspectos psicológicos (e parapsicológicos) a serem abordados.

O autor tem o hábito de apelidar seus personagens por adjetivos, porque, em algum momento do livro, é dito, por exemplo, que Morpheus é o irmão mais novo, então, lá na frente, Phobetor se refere ao “caçula”. Isso é muito confuso. Até você lembrar que o caçula é o Morpheus é um troço bem ruim. Draccon faz muito isso, com os outros personagens também. Deveria haver um tratamento mais condizente para com eles, até para facilitar para o leitor.

Em matéria de personagens Allejo foge muito do estereótipo de jogador de futebol. É que ele conhece muito da cultura popular que seria mais plausível a um nerd. Cá para mim (e isso não é preconceito, mas a simples visualização do arquétipo), jogadores de futebol profissionais (e mais ainda os profissionais que se tornam craques internacionais envolvidos em negociações milionárias), passam a vida jogando bola, só pensam nisso e só vivem nesse meio. Não tem lá muito tempo para ler Tolkien, assistir seriados de TV ou ler gibis cult como Sandman (referências muito abordadas durante a narrativa). Ignorar isso é até uma falta de bom-senso e conhecimento de mundo. Já Ariana é retratada como uma mocinha de sotaque gaúcho, e suas falas são permeadas com “bás” e “guris” por todo lado, mas o mesmo não acontece com Allejo, que não trás seus sotaque do sudeste no texto (opção do autor de fazer o gaúcho como “alienígena” ao seu “padrão”). Não ficou bom, mas nem por isso o livro poderia ser considerado ruim.

Num dado  momento, Ariana some do texto e fica apenas Allejo como personagem principal. Ariana se torna apenas um joguete sobre o qual Allejo faz sua trajetória monomítica, a la Matrix, por centenas de páginas.

O pior de tudo é a péssima escrita (vou insistir) com que Fios de Prata (Leya, 352 páginas, R$ 39,90) é narrada. PÉSSIMA. As mancadas no português são de todos os tipos e dos mais cabeludos. Construções das mais bizarras, frases inteiras sem qualquer lógica, pontuação incompreensível, palavras escritas erroneamente (!), parágrafos de puro delírio literário, períodos risíveis, vocábulos equivocados nos piores lugares e por aí vai... Um exagero, sim, concordo! E não é culpa somente da revisão não! Muito pelo contrário. Imagino como esse texto deveria estar antes de ser revisado. Nada a dever para crianças de doze anos que se metem a escrever seu primeiro “romance”; deslizes dos mais absurdos, de uma incompetência que daria pau em qualquer ENEM.

Mesmo se dando ao trabalho de retirar as ciladas que o Word prega na gente, como já aventado, ainda assim ficam erros conceituais, de semântica, de concordância e de tempo (de tempo! Isso é imperdoável!) que denigrem qualquer imagem (a não ser que você seja um “fã”, e para o fã ao ídolo “se perdoa tudo”). Deixa eu ser mais claro: semântica é o significado de uma palavra, é a aplicação de uma palavra para exprimir o que ela é. Errar semântica é o que o Giovanni Improtta, o bicheiro, personagem de José Wilker, numa novela global (cujo mote era: “Felomenal”), mais fazia. É não saber o que uma palavra significa!!! É dizer “navio” quando se quer dizer “canoa”; é dizer “amor”, quando se quer dizer “ciúmes”; é achar que “sapato” é combinação de “sapo” com “pato”. Meu... Espera-se que um escritor saiba um mínimo da língua, certo? Ou é má vontade minha? Não é pouca coisa não! Dá dó ler um livro assim. Dó dos leitores desavisados, muitos deles crianças ainda, que um dia errarão o português num e-mail, numa questão na escola ou no vestibular por, talvez, terem desaprendido a língua com esse texto vergonhoso.

ALBARUS ANDREOS


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