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As Crônicas de Gelo e Fogo: O Festim dos Corvos - George R. R. Martin

>> sexta-feira, 1 de março de 2013



Notícias estarrecedoras têm chegado do outro lado do Mar Estreito sobre revolta de escravos em Astapor  e dragões ressurgindo em Qarth. O Festim dos Corvos (Leya, 644 páginas, R$ 49,90) se foca mais em duas regiões específicas além de Westeros, primeiramente Dorne, onde o príncipe Doran Martell tem que controlar seu povo à beira de uma rebelião por vingança, devido à morte de seu amado príncipe Oberyn, o Víbora Vermelha (após duelo com sor Gregor “A Montanha” Clegane). Martell tem ainda que se preocupar com as maquinações da princesa Arianne, guardiã da pequena Myrcela Lannister, que quer se ver rainha de Dorne. Em segundo lugar temos as Ilhas de Ferro, onde Aeron Cabelo Molhado, irmão do defunto Balon Greyjoy deseja ungir o novo Rei do Norte, depois da, digamos, “indisponibilidade”, do antigo... Entramos no quarto volume da aclamada série de fantasia As Crônicas de Gelo e Fogo, do megalomaníaco autor americano George R. R. Martin, e o mundo nunca foi tão amplo!

Há um ligeira mudança na maneira de abordar os capítulos, que se iniciavam sempre com o nome do personagem a ser retratado. Há agora mais personagens e os capítulos se iniciam, às vezes, com um “A Fazedora de Rainhas”, ou “O Capitão de Ferro”, ou “A Gata dos Canais” ao invés do nome de Fulano ou Sicrano. É que estes alcunhas são, na verdade os nomes pelos quais são chamados personagens novos e alguns já bem conhecidos (Gata, por exemplo, é como Arya Stark é chamada agora, em Bravos). Convém destacar que o livro parece meio empacado, já que a história não anda no ritmo que se poderia imaginar. Parece doideira minha com tanta coisa acontecendo, mas elas estão espalhadas por uma centena de personagens. Muitos são esquecidos de um livro para outro, deixados de propósito no limbo para que tenhamos a sensação de que estão longe demais neste imenso mundo, fazendo coisas comezinhas, como acontece com todos nós, procurando se esconder, fugindo, ou simplesmente esperando seus planos se realizarem. Enquanto isso, exércitos marcham, mortos-vivos se levantam e reis são podados como hastes de trigo maduro num campo regado a sangue.

O grande “mal” (se assim se pode dizer da deliciosa megalomania de Martin) é que personagens de apoio, no livro, assumem a todo momento o papel de personagens principais e o panteão só aumenta. George Martin é, acima de qualquer outra coisa, um excepcional criador de personagens. Há lá, no final do livro, nos Apêndices que nos ajudam a saber a que Casa cada personagem pertence, um milhar de pessoas, entre cavaleiros, rainhas, aias, bandoleiros, soldados, meistres e até animais de toda uma série de cortes que, se deixarem, Martin vai transformar, hora ou outra em personagens principais também, e terão lá seu título num capítulo.  A sensação de “livro meio parado” vem pelo fato de que a ação que esperamos acontecer é protelada demais, pois mais personagens estão encabeçando capítulos a cada livro.

Há uma nota lá no final onde o próprio Martin revela que decidiu dividir este livro em dois, pois havia muitos personagens e ele preferiu “contar toda a história de metade deles a contar metade da história de todos” senão o livro ia ficar mega-hiper-maxi-combo-ultra-grande. Coisa, imagino, de uns dois quilos de papel (valha-me São Ebook!). Neste ainda vemos Cersei, Jaime e também Brienne, Arya e Sansa (vamos fazer um bolão para ver quem sobra no final?) mas muitos outros caras, que nos deixaram de cabelo em pé, no terceiro livro, não foram tocados (como aconteceu no terceiro em relação ao segundo, diga-se de passagem...). Êta, agonia do inferno!

George Martin é magistral como sempre e nos faz esperar e apreciar o jantar como bons meninos (as), se quisermos comer a sobremesa. Quero ver como ele vai conseguir unir tantas pontas soltas com sua escrita envenenada de ódio e inveja, como vai conseguir dar um destino palatável a tantos dramas e personagens espantosos que criou para que amássemos e odiássemos nesse universo de fantasia terrível, violento e absolutamente crível... Ah, mas se bem conheço esse velhote maluco ele vai cortar algumas cabeças aqui e ali e no fim resolve tudo. Para Martin, na verdade, não tem disso de ser personagem principal. Qualquer um ali está sujeito a um “mau dia” (se é que me entende).

Uma coisa importante: isso de leitura embolada está relacionado a uma escrita mais difícil também. Parece que o tradutor e o revisor estão tentando ver quem é que realmente está prestando atenção, pois a escrita não está fluída. Há muito uso de termos meio fora do vocabulário geral, e as construções são, às vezes, meio exageradas quanto a sua erudição. É um português de Portugal abrasileirado, mas as inversões deixam as frases difíceis de entender em muitas situações (não raro impossíveis), mas o charme de As Crônicas de Gelo e Fogo vem até disso! Talvez uma simplificada na construção das orações seja uma boa, mas não dá pra reclamar. Há erros até de nomes de personagens, mas a essa altura já devem ter enlouquecido por lá. Tudo é genial e O Festim dos Corvos segue a tradição de seus três deliciosos e gigantescos irmãos anteriores.

Há um erro grotesco de visão de mundo neste livro. George Martin não pode achar plausível que num universo medieval como o que temos aqui já se soubesse que o sêmen humano é composto por milhares de pequenas células reprodutoras que levam as características paternas para o futuro herdeiro. Numa das, agora, costumeiras divagações de Cersei (que parece que está começando a não bater bem da bola), a rainha linda, dourada e má fica refletindo que quando masturbava e fazia sexo oral no seu marido, o rei Robert “cachaceiro” Baratheon, ela estava devorando dez mil principezinhos, ela engolia e lambia os dedos (uau!) e devorava os herdeiros de Robert... Até fiquei excitado, mas preferia que Martin tivesse sido mais plausível. É estranho que não apareceu nenhum revisor para alertá-lo de uma bola fora desse quilate.

Às vezes eu sonho que sou George Martin, e como o personagem que mais gosto é Tyrion, disparado, o velho George deve ter dado uma risadinha sinistra (de tanto que já afirmei, nas resenhas anteriores, que Tyrion era o personagem favorito dele também). Então deve ter dito “ah é, seu trouxa, então tome” e assim o autor arrumou uma treta tão forte pro anão, no final do terceiro livro, que até o anão arregou deste quarto volume. Não deu as caras! Fugiu com o eunuco! Sumiu, escafedeu-se. E Jaime Lannister agora odeia Cersei (daquele jeito dos amantes cansados, de beicinho um para o outro) e Cersei odeia Jaime e se tornou uma verdadeira Darth Vader de saias (até vestida de preto, com a morte de seu pai, Tywin Lannister). Em contrapartida, Jaime se aproximou demais do irmão desaparecido, depois de ter perdido a mão da espada e a dignidade, primeiro numa cela de prisão, depois sendo levado por uma coleira de volta à Porto Real, por Brienne de Tarth. A alcunha Regicida nunca pesou tanto sobre seus ombros. A certeza de ter feito o que era correto, matando o rei louco Aerys, um déspota sanguinário, é a única coisa que o sustenta ainda. A liberdade, que lhe foi dada por Catelyn Stark, o dobra como um golpe e exige uma nobreza que ele escava fundo dentro de si para encontrar. Parece que temos um novo Jaime neste quarto volume, com cabelos louros, cara, poder e agora também índole de herói.

Falando de Tywin Lannister, morto por Tyrion no livro três, temos o que, na minha humilde opinião, é uma das passagens mais geniais de George Martin em toda a série. Não há batalhas, não há heróis e não há magia. Há sim a mão de um escritor, indubitavelmente, dos mais talentosos da atualidade! O funeral, permeado com as reflexões da rainha em itálico, o cheiro do defunto, que a cada dia fica pior, o fingimento dos transeuntes que vão ver pela última vez o mais poderoso homem do reino e fingem não perceber o fedor, e o risinho... Há um burlesco risinho no rosto do homem que jamais rira enquanto vivo; um risinho débil advindo do rigor mortis que lhe descaracteriza pateticamente o semblante. O sorriso cadavérico que destoa de toda uma biografia de hostil frieza. Tywin Lannister enfim ri e a plateia que criou debocha dele. Hilário! É cômico ver Cersei passada com a situação em toda sua lourice e poder; a passagem é desconcertante, humilhante, Machadiana. O pequeno rei Tommen vomita nos pés diante do caixão, Cersei não sabe onde enfiar a cara, começa aí o que imagino ser uma guinada na trajetória que Martin imaginou para a rainha (*quando escrevi isto ainda não havia chegado ao final do livro. Você não pode imaginar o que foi feito dela!!!). Ela é poderosa demais, solitária demais, má demais, fresca demais, filha-da-puta demais, para poder reger o reino de seu filho ainda criança. É apoteótico, arrebatador, transcendente! É de uma realização literário das mais pungentes e de uma perfeição estilística marcantes. Martin é o gênio literário de minha geração. O cara é fóda!

Por que é que tenho essa sensação de orgulho, caro (a) leitor (a)? Por que é que eu acho que estou vivendo um momento único na literatura? Um momento histórico, como deve ter sido quando a saga Star Wars arrebentou nos anos oitenta. Sinto-me inflar o peito e instintivamente elevar o queixo e olhar para um céu azul de brigadeiro, onde um único corvo negro vôa (Ah, sim: um corvo com três olhos...), e pareço escutar uma melodia de fundo que é a canção dos Lannister, As Chuvas de Castamere: And who are you, the proud lord said, that I must bow so low? Only a cat of a different coat, that's all the truth I know.

In a coat of gold or a coat of red,
A lion still has claws,
And mine are long and sharp, my lord,
As long and sharp as yours

As Crônicas de Gelo e Fogo:

1. A Guerra dos Tronos
2. A Fúria dos Reis
3. A Tormenta de Espadas
4. O Festim dos Corvos
5. A Dança dos Dragões
6. Os Ventos do Inverno

ALBARUS ANDREOS
 
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