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O Temor do Sábio - Patrick Rothfuss

>> quinta-feira, 30 de agosto de 2012




Lamento dizer queridos leitores, mas Patrick Rothfuss está morto!
   
Sinto-me traído, decepcionado, irritado até... Tudo o que não deve ser relacionado a uma boa leitura me vem do estômago, neste momento, envolvendo meu coração numa capa morna e ácida. Uma lástima que me seguiu a partir do ponto em que comecei a achar que o Rothfuss que estava lendo não era o mesmo de O Nome do Vento (Arqueiro, 2009), o primeiro da série e que suscitou em mim leveza de espírito, paixão acachapante e idolatria. Com orgulho cheguei a propalar que Rothfuss era meu ídolo.  Morreu... Não é mais.
   
Como dimensionar a decepção de um fã com seu ídolo? Estou sem ânimo para falar muito sobre isso na verdade. Após uma leitura entediante e seca de emoções, terminei o calhamaço intitulado O Temor do Sábio: A Crônica do Matador do Rei - Segundo Dia (Arqueiro, 960 páginas, R$ 59,90). Não me recordo da última vez que demorei tanto para terminar um livro. Não que a grossura seja um problema (já li outros, tão volumosos quanto); para um livro que gostamos, ser enorme é uma qualidade muito bem-vinda, mas não é o caso.
   
Vou tentar fazê-lo entender o que quero dizer. Uma tentativa débil, já que me falta ânimo para defender profundamente a ideia.
   
Recentemente surgiu uma notícia que fez os fãs de Crepúsculo se debulharem em lágrimas. Nada a ver com os livros, Ok! Mas eles tiveram que encarar a pulada de cerca da atriz Kristen Stewart (a mocinha botou um par de chifres no ator Robert Pattinson, seu namoradinho desde os primeiros filmes da saga. O ator é ídolo das adolescentes desde quando era colega de Harry Potter, na pele de Cedrico Digori). Fãs se descabelaram, alguns não acreditaram e disseram que tudo era armação (Jesus! Bom... Tem gente que não acredita que o homem foi a lua, não é?!) e outras pessoas nem sequer sabiam quem era Kristen ou Bob (existe gente que tem que viver a vida, afinal!).
   
As que sentiram a separação como um golpe (as fãs mais xiitas da saga de Stephenie Meyer), talvez sejam as mais próximas de entender minha decepção com O Temor do Sábio. Não chorei, não queimei o livro, não perdi o sono... Até porque este livro deu um sono danado! Só que a sensação de vazio no peito é muito ruim. Se você está acostumado a rir de minhas resenhas, se divertir com "tiradas engraçadas", a se identificar com minhas "críticas espirituosas", lamento decepcioná-lo.  Só há trevas aqui!
   
O Temor do Sábio continua a saga de Kvothe, iniciada em O Nome do Vento e não termos a mesma dinâmica do primeiro livro, o andamento mágico do enredo, a mesma sequência impecável de magia digna de ser considerada o maior livro de fantasia atual por George R. R. Martin (de As Crônicas de Gelo e Fogo). O livro é arrastado, moroso e enfadonho. Sim, temos os queridos personagens e elementos otimamente engendrados do primeiro livro, que acompanham o Kote adulto (o Cronista, Bast, a taberna Marco do Percurso...) e o Kvothe jovem (Denna, Simmon, Auri, Meste Kilvin, a Ficiaria, os latoeiros etc.), contudo, quase nada de novo acontece. Estamos na Universidade, com as aulas, as dificuldades com grana, os problemas com Ambrose, os empréstimos com a usurária Devi, as apresentações de alaúde... Depois, conhecemos o maer Alveron, Tempi e... Feluriana. Mas o que prometia excitação, deslumbre e arrebatamento em altas doses de boa fantasia, nunca veio.
   
A ótima narrativa de Rothfuss está lá, é claro, a poesia dos momentos com a pequena Auri também, as construções geniais aparecem comumente, a escrita é muito boa mas não temos assunto! Praticamente não ouvimos mais falar do Chandriano embora Kvothe tenha readquirido acesso à biblioteca. A procura pelas respostas que se iniciaram no primeiro livro, obsessão do jovem arcanista até então, infelizmente não é retomada de fato, com exceção de umas pinceladas; o autor se perde demais no cotidiano da vidinha do nosso Kvothe.
   
Depois de centenas de páginas falando do dia-a-dia da Universidade onde o maior desafio fora recuperar um simples anel da sua namoradinha platônica Denna, Kote resolve pular dois episódios inteiros que poderiam ser de grande interesse do leitor: o julgamento em Idris (citado em outra ocasião, no primeiro livro) e a viagem até Vintas. Surgiram alguns preocupantes pontos de dissonância lógica também. Na corte do maer Alveron, Kvothe precisa de passarinhos para testar se ele está sendo envenenado. O maer pede ao seu criado Stapes que apanhe alguns no jardim e ele volta depois de alguns instantes com uma dúzia! Como assim? Ele sai e volta como se tivesse ido buscar algumas cebolas na cozinha? Desde quando uma esquisitice como "capturar passarinhos" é fácil desse jeito? Ficou bizarro!
   
Kvothe, pelo milésima vez, se perde e reencontra a garota de programa Denna e fica com aquele vai-não-vai de "virgens acanhados" que já encheu. Dessa vez ela está do outro lado do mundo, em Vintas! Meu, que coincidência, não?!! É como você sair de Venceslau Braz, no Paraná, e ir até Capistrano, no Ceará, e encontrar a pessoa que se ama, assim, sem mais nem menos, no meio da rua! Eu não gosto de coincidências e, na minha opinião, ficou tudo muito ridículo. É exigir condescendência demais do leitor. Que pena... Por que essas bolas fora, Rothfuss? Simplesmente, tenho que lhe dizer meu velho, que não é mais meu autor favorito! Depois de tantas páginas fica a impressão que o livro foi esticado até a imponderabilidade. Assunto para duzentas páginas distendido até se tornar fino e insubstancial como uma pétala de uma flor transparente num sonho que passou devagar, pesaroso, febril...
   
No Eld, na companhia de um batedor, dois mercenários e um guerreiro ninja adenriano Tempi, a narrativa nos entrega uma centena de páginas de um Kvothe aprendendo libras e tai-chi-chuam arte lethani... (Que sono!) As desavenças com Dedan mostram um Kvothe ainda adolescente e já se metendo a desafiar um cara duas vezes maior que ele, o que levanta certa incredulidade quanto ao texto. É importante ressaltar que n'O Nome do Vento, Rothfuss não cometia dessas incongruências, sendo sempre muito cuidadoso em não deixar o leitor descrer de seu texto.
   
Dá para ver que a intenção do autor é esmiuçar a formação de uma lenda: Kvothe. Ele, repetidas vezes, demonstra como o jovem arcanista exagera nas suas próprias histórias no intuito de construir uma "reputação" para si: "o Arcano", "assassino frio"... Bast, aliás, acredita nisso piamente e até arruma confusão para o velho Kote, na sua estalagem, achando que este abandonaria seu casulo e se revelaria o velho Kvothe, o herói das lendas pretéritas. Isso não acontece, contudo, e é um ponto positivo na literatura de Rothfuss, mas se estamos falando de um livro de fantasia, talvez fosse melhor se isso fosse verdade, porque se ficarmos economizando na matéria prima, fica tudo muito chato! No fundo, vemos um cara quase comum, com uma fama desmedida. Muito fiel à realidade, mas isso pouco contribui para a fantasia. A decepção de Bast é, na verdade, a minha própria! Rothfuss faz de Kvothe um Pedro Malasartes frustrado.
   
Li recentemente uma suposta carta do autor a uma escritora iniciante, sua fã (segundo consta teria sido extraída de seu blog), em que aconselha a moça a não se estender demais nos assuntos. Que o início de O Senhor dos Anéis, com todos aqueles detalhes do aniversário de Bilbo, era maçante e exagerado demais; que Tolkien teria se demorado muito em explicações e descrições além do aceitável. Bem... eu concordo integralmente com isso! Sempre achei a mesmíssima coisa. Ele diz também que a Bíblia é outro exemplo, onde as descrições e detalhes também existem, mas o Levítico e Números estão lá pelo meio do livro e que o início (Gênesis) é "Ação!", "Magia!" e que "por isso é o livro mais vendido do mundo".

Acontece que ele comete esse erro em dose tripla em O Temor do Sábio, já que tanto o início, o meio e o final são chatos e descritivos demais! Rothfuss detalha compulsivamente a aprendizagem de Kvothe e se esquece que o que queremos realmente ver é sua vingança, a caçada ao Chandriano e a história dos Amyr. Falta ação! Não dá para entender também que, ao descobrir o Nome do Vento (sim, Kvothe descobriu o tão esperado Nome do Vento!), o personagem tenha encarado isso com tão pouco entusiasmo. Cara, isso parecia ser tão importante no primeiro livro que simplesmente é o título da obra!!!

Minha teoria é que, pelo fato de termos um grande autor que escreveu um livro inicial maravilhoso, ninguém teve coragem de lhe impingir alguns conselhos sábios ao escrever o segundo, como "cortar o que não for estritamente necessário", "sintetizar para não embolar o meio-campo e aborrecer o leitor","concatenar ideias para não se perder e ter que ficar explicando depois" e outras coisas do tipo. Isso, todo editor faz quando se apresenta o primeiro livro, mas se este primeiro vende milhões de cópias parece que ninguém tem a audácia (ou peito mesmo) de lembrar ao autor destas boas premissas para os livros seguintes. O mesmo aconteceu com J. K. Rowling, embora não aconteça com Bernard Cornwell ou o próprio George R. R. Martin (talvez seja porque eles escreveram muitos outros livros antes de começarem a vender milhões e assim treinaram bem as "regrinhas da boa escrita ficcional". Foram muito melhor revisados e aconselhados antes de virarem os ícones literários que são. O tempo foi o mestre e Cornwell e Martin, agregando amadurecimento às suas escritas).

Achei Torci, até umas cem páginas do final, que o cara me surpreenderia com uma reviravolta espetacular, um artifício de autor fantástico que me deixaria de queixo caído e me faria entender cada uma das páginas chatas de todo o livro e me faria dizer "Putz! Então era isso!!!". Cara, como eu torci para isso! Mas não... Nada disso aconteceu e até o final, exceção para uma ou outra sacada legal (só isso, e "legal", para um cara como Patrick Rothfuss, não é sequer admissível!). No todo, tivemos um livro chato pra caramba!

E eu já ouvi alguém dizer que a história que se conta pode até ser chata, mas se o autor souber contá-la, fica boa! Bem, Rothfuss é genial como escritor, mas isso não salvou O Temor do Sábio. Aqui está a prova de que uma história não pode ser tão fraca! Não TÃO FRACA, pelo menos! Lamento.

A Crônica do Matador do Rei:
1. O Nome do Vento
2. O Temor do Sábio

ALBARUS ANDREOS


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