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A Mão Esquerda de Deus - Paul Hoffman

>> quarta-feira, 11 de janeiro de 2012



Resenha by Albarus Andreos:


Prepare-se para ser maltratado!


A Mão Esquerda de Deus (Suma de Letras, 328 páginas, R$ 39,90) escrito pelo inglês Paul Hoffman, foi um livro muito difícil de resenhar. Difícil pela sua dualidade, hora boa e criativa, hora mal ajambrada e simplista, por ter passagens muito boas e soluções pífias no que se refere ao enredo. O livro narra a agonia de Thomas Cale, um jovem acólito de uma sanguinária seita de inspiração católico-medieval, com um viés crítico extremamente exagerado quanto à violência e a corrupção reinante entre seus “padres” (o uso de termos pejorativos, o apelo a rituais e o jargão católico é que sugerem a correlação com a Igreja).

O livro possui uma boa história (mas que se perde do meio em diante, com o romance entre Cale e Arbell Materazzi e uma história sem muito sal). Há um argumento latente muito bem pensado e um vocabulário muito rico, mas ambos não são realmente bem utilizados pelo autor/ tradutor em muitas passagens. Algumas são muito bem escritas, como aquela em que Cale enfrenta em luta singular Solomon Solomon, o expoente da casta dominante local, os Materazzi, mas há outras em que a coloquialidade (pelo menos na tradução da editora Suma) prejudica em muito a dramaticidade do enredo. O autor optou por construir um narrador que constantemente se comunica com o leitor, com perguntas tipo “...o que você acharia se tal coisa acontecesse?”, ou então com indefinições escorregadias como “...então ele achou que deveria fazer alguma coisa, seja lá o que fosse...”. Na minha opinião isso não soa bem, ensejando um raciocínio confuso que se choca com o narrador onisciente adotado à princípio, na obra.

Cale é surrado, humilhado, degradado e abusado tantas vezes enquanto esteve dentre as muralhas do Santuário (uma espécie de mosteiro onde foi levado desde criancinha) que não conseguimos imaginar como é que ele saiu dali uma pessoa normal (por mais anormal que se mostre depois, no transcorrer da trama, tal sua sagacidade, capacidade de luta e os momentos de non sense explícitos quando Cale se depara com objetos e palavras que nunca viu antes, devido ao isolamento a que os internos ao Santuário são submetidos). Aliás, o clima engendrado pelo autor não faz muito sentido mesmo: coisas que não combinam, como um exército extremamente preparado para o combate que sequer conhece o mundo exterior e o que pode ser comido ou não (de tão acostumado a comer lavagem, Cale constantemente vomita ao se deparar com um pedaço de bife na boca), ou a facilidade com que são descartados no rigor dos treinamentos, sendo que seria muito mais lógico tê-los vivos para enfrentar o inimigo (os Antagonistas, como são simplesmente descritos).

Paul Hoffman exagera tanto nestes maus-tratos que, mais uma vez, tira muito da credibilidade da trama. Um pouco menos de crueldade e sadismo seria mais plausível, dando-se aos Redentores um pouco mais de humanidade, o que nos remeteria simplesmente à loucura de aficionados e fanáticos. Do jeito que está deparamo-nos simplesmente como um antro homicida sem sentido, difícil de engolir. Não dá pra entender, na verdade, como é que o restante dos meninos (todos os acólitos no Santuário são meninos) simplesmente não tire a própria vida por não ter tido a sorte de morrer em alguma seção diária de espancamentos (e não são só as surras banais, a tortura psicológica também é brutal e desumana. Além disso, a comida é horrível e o sono pouco).

Hoffman quer sugerir que os garotos são submetidos à lavagem cerebral, o que não é plausível também, já que indo parar no Santuário tão pequenos, não precisariam de lavagem cerebral, mas apenas do condicionamento nos moldes dos preceptores já que o que é dito às crianças pequenas é assimilado por elas como uma esponja. Ficamos boiando, na verdade, procurando uma razão para tudo aquilo e pouco convence o argumento que “justifica” a crueldade por parte dos Redentores de que assim os “soldados” estariam mais aptos a lutar, assassinar e esquartejar sem temer o inimigo (e outras baboseiras do tipo). Algo simplista demais, na minha opinião, sem qualquer fundo plausível e necessário para agregar verossimilhança à narrativa. O autor abusa assim da nossa boa vontade como leitores e nos pede uma chance. Se você concordar então seguimos...

Cale dá o maior azar quando descobre um Redentor fazendo uma atrocidade danada em meninas (que, sabe-se lá Deus como são enfiadas na história) e o mata, mesmo depois de ter passado dez anos refinando sua habilidade de permanecer impassível e cuidando do próprio rabo, levando tapa na cara e controlando sua fúria ninja-budista-master-jedi. Aí tem de fugir e leva a menina que sobrou e mais dois companheiros de treinamento/ maldição junto dele. Mas ao cair no mundo externo ao Santuário, veem-se em um ecossistema totalmente estranho, Memphis, a cidade em que chegam após a fuga e ficam por aí, se muito mais o que fazer. Talvez o autor peque por isso, já que não temos um objetivo maior na trama. A história por si, não acolhe os seus argumentos iniciais e os utiliza para armar uma trama interessante depois. Tudo o que vimos até aqui não é depois utilizado para agregar valor. Ficamos num lenga-lenga cansativo, o namorico de Cale a raiva dos Materazzi, e a história não anda.

Hoffman até ensaia boas passagens, mas não deslancha (estranhamente, já que fica evidente que sabe escrever). Cria situações atraentes mas, incompreensivelmente, não desembocam em mais passagens boas e se perdem como se ele não soubesse onde chegar. Na verdade, os rumos que a história toma parecem mostrar que o autor titubeia e muda de intenção várias vezes. Parece que estamos nos encaminhando para uma direção quando ele simplesmente deixa aquela ideia de lado.

É a maneira do autor contar a história que me causou tanta indisposição com o todo. O texto, se bem desenvolvido, poderia ser muito melhor mas, definitivamente, faltou uma mão direita para Hoffman e o resultado parece-se muito com o amadorismo de um escritor a quem ainda falta a destreza necessária (desculpem os trocadilhos mas não pude evitar!). Aquela velha máxima repetida para autores iniciantes de que “menos é mais” (ou seja: "escreva com mais simplicidade e economia textual para atingir um resultado mais claro e preciso") se mostra definitivamente inadequada aqui. Afinal, escrever não é só acertar onde por as vírgulas e acertar o gênero das falas, mas criar um mundo e quanto melhor e mais detalhadamente o fizermos, melhor a criação!

Os personagens são de uma planura tosca, as reviravoltas absolutamente aleatórias e sem propósito. Perde-se tempo demais falando em comida, em como os Materazzi e os Redentores são exímios, mas na hora do “vamo-vê”, são completamente subjugados pelo super-herói Thomas Cale, ainda um adolescente, que é capaz de matar oito guerreiros Redentores que deveriam ser homens treinados e capazes (como o método de treinamento sugere) e fazer os Materazzi de bobos, com sua habilidade de luta inacreditável. Mas ai surge uma explicação para a perícia sobre-humana do herói: ele teria sofrido um ferimento na cabeça que lhe deu um reflexo extraordinário, podendo antecipar os movimentos do inimigo, mais ou menos como o Homem-Aranha (bater a cabeça faz isso tudo???).

Tudo o que o autor constrói de interessante no início, de repente vira um romance interminável onde Cale descobre finalmente o que é amar (aprendeu sozinho, embora nunca, em nenhum dia de sua vida pregressa, tenha sido tratado sequer com respeito, o que deveria tê-lo transformado em um animal; onde soube o que é o amor eu não consegui descobrir. O detalhe é que ele se apaixona por uma pessoa do sexo oposto (ufa!), já que, até uns dias antes, ele sequer havia visto uma mulher de verdade!). Bizarro como o apelo sexual pelo sexo oposto simplesmente aconteceu “pelo destino inexorável da natureza humana”.

IdrisPukke (assim mesmo, sem espaço ente o “s” e o “P”) é um mistério, não por ser um personagem misterioso, mas porque não dá para entendê-lo, saber a que veio ou seu caráter. É um general que passou por reviravoltas estapafúrdias que hora o mostram como um bom conselheiro, hora um bufão. Estranho...

Riba é inacreditável como os demais mas parece mais condizendo com alguém confinada do mundo externo e que um dia se vê nele. Patética (por se achar linda embora não seja vista assim pelos outros), parece se sair bem demais na função de “embelezadora” das garotas Materazzi. Só não dá para entender como é que o autor as define como lindas e deslumbrantes se precisam de uma “embelezadora” alienígena para isso (já deveriam ter os próprios métodos e as próprias “embelezadoras”, certo? Portanto, tratar a outra como inadequada ou extravagante, deveria ser a regra). Apesar disso, Riba se dá muito bem...

E os médicos... Hoffman se refere a eles apenas para ressaltar o quanto são incompetentes, e até Cale, um tosco que cresceu à base de pancadas, parece saber mais sobre como curar feridas!

Hoffman, sem dúvida, não sabe dosar a mão.

O tropeço do escritor se ressalta quando faz pessoas inadaptadas (Como Cale, Kleist, Henri e Riba), que deveriam ter uma dificuldade muito grande em se dar bem por alguma razão, saírem-se muito melhor que a maioria de nós na mais variadas situações como se imbuídos de um dom especial. São, portanto, personagens altamente incríveis (no sentido de não serem críveis...).

Na capa, abaixo do nome do autor, podemos ver as costumeiras críticas que acompanham estes romances de fantasia: “O seu portal dourado para o desconhecido” diz o Daily Express. Já o Daily Telegraph diz “Visceral e envolvente”. Parecem frases feitas que eles simplesmente copiam e colam em todos os livros. Enfim, não o aconselho a ninguém que queira um bom livro de fantasia para passar uma tarde chuvosa e muito menos para aqueles que queiram degustar um livro como rezam os bons preceitos da escrita. A Mão Esquerda de Deus é uma obra realmente canhestra (ops... olha outro trocadilho aí).


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